Neste escrito vai ser lançada uma hipótese de como teria sido a partição privativa da terra associada à caça e posterior cativério e domesticação, tomando como cenário Cermuço e Ar da freguesia de São Pedro de Vilar (Ponte d'Eume).
Foi na análise de lugares como este da Vila Nova de São João de Camba (Rodeiro) que figérom pensar que aparentemente por diante de um primário cousso teria sido construída uma tapada maior. Numa hipótese de: uma vez perdida a funcionalidade da caça do recinto, já com animais domesticados ou semidosmesticados, cativos dentro do antigo cousso usado como cercado, teria havido a necessidade de alargar, ampliar, o terreno vedado para aumentar o número de cabeças, de reses.
Na imagem a Vila Nova nasce como um cercado maior ao talvez anterior Fonte Gemas, aproveitando os valos anteriores
Vila Nova de São João de Camba (Rodeiro) vila na ideia galaica, não na ideia romana:
Assim um vilar entre outras cousas é:
En algunas comarcas llaman vilar a los campos de centeno que, después de sembrado, se cierran con un balado que no se derruba hasta que se siega, y queda el terreno a restreva o pallarega.
Leandro Carré Alvarellos (1979): Diccionario galego-castelán e Vocabulario castelán-galego, A Coruña, Moret.
Mas quanto de nova teria sido a Vila Nova?
A forma, tão arredondada, mas que ainda conserva becos, funis de captura, daria para pensar que os animais ainda requereriam um maneio como semisselvagens.
Ora poderia ser hipótese que Fonte Gemas é um cousso de caça, e a Vila Nova uma granja neolítica.
Teria acontecido esta "reforma" numa altura na que a caça já perdera toda a sua relevância na alimentação.
Vila Nova seguindo esta hipótese teria nascido no Neolítico final, Bronze inicial, como *Willa *Nowiyam "paliçada nova, valo novo".
O caso aqui para apresentar é o de Cermuço e Ar, onde haveria um recinto superior no vale, anterior, a meu ver, já na possibilidade de ser secundário a um pequeno cousso (as Pedridas) e a uma outra vedação posterior: a de Ar

Analisando Cermuço.
Cermuço aparece nos escritos do mosteiro de Caaveiro do século XII como Cermuco e Cermuezo (transcrito polos investigadores que editaram os seus trabalhos, recolhidos no CODOLGA).
Cermuço é um topónimo isolado, talvez aparentado com Sermã (-ám)?

A Sermã (-ám) de Santa Vaia de Donas (Gondomar)
Uma hipótese para Cermuço, e para a Sermã (-ám) atendendo à sua hipotética função pecuária, seria:
Protoindo-europeu *ser- "pôr juntos, ligar, unir, atar".
Protoindo-europeu *-mós / -mos (indica a ação de um verbo ou substantivo).
Assim *sermos "a ação de juntar, juntura, juntança, ligação, junção".
*Sermuço (diminutivo, pejorativo) "junçãozinha, juntancinha". Ou *Sermotium "o lugar da juntança".
*Sermana "a da juntança, a da reunião".

Cermuço teria posteriormente aos seus becos dous currais, no oeste Palácio, que conservou o ele intervocálico e não foi dar no frequente paço; e no lado leste Campo Longo que a sua forma já indica a razão. O topónimo Campo, com ser uma palavra genérica, que pode aparecer, dando nome a qualquer em qualquer lugar como microtopónimo, costuma, nos coussos e nas suas evoluções, dar nome aos becos e aos curros, currais, posteriores a estes vértices.
Outro dos topónimos frequentes associados a estas proto-granjas é Casa Velha, que na Sermã (-ám) tabém é possível ser observado.
Cermuço já teria nascido com um relativo pastoralismo, na função de ameijoar, acurrar, gerir, os animais que pasceríam no vale polo que corre o rio de Vidreiro.
Quanto a Ar:
Ar teria nascido como maior tapada já numa só peça, encerrando maior quantidade de território do que Cermuço, sem necessidade de pastoreio aberto;
Tapadas privativas do espaço similares a esta, poderiam ser granjas neolíticas, já foram frequentemente apresentadas no blogue:São Gião de Cumbrãos (Sobrado dos Monges).
Então quando nas escrituras de Caaveiro, século XII:
....Damus tibi ipsa villa vocitata Casale de Oario, in villa de Cermucu, concurrenciam Sancti Salvatoris...
"Nós damos-lhe a mesma vila chamada Casal de Oário, na vila de Cermuço, lindantes com São Salvador / que concorrem a São Salvador".
Poderia ser inferido que vila de Cermuço é dona ou tem dentro de si a vila de Casal de Oário, como a hipótese pecuária mostraria.
O texto segue:
...per ubi ea potueritis invenire per suis terminis et locis antiquis, cum quantum ad prestitum hominis est, intus et foris, per ubi eam obtinuerunt antecessores nostri.
"onde poderá encontrá-la dentro dos seus limites e lugares antigos, com quanto de prestação / utilidade / proveito é para homem, dentro e fora, onde os nossos antepassados a obtiveram".
Disto também poderia ser concluído que a vila "Casale de Odoario" (vila no sentido galaico) tem uns limites ancestrais que mais ou menos poderiam ter chegado até o século XII, limites que talvez seriam os da granja do período neolítico ou do Bronze inicial.
Na documentação de Caaveiro no século XII, aparece então Casale de Oario, que daria o atual Ar, talvez por um genitivo tipo *(casale) oari, *oar, até o atual Ar?
Na freguesia de Abelhã (Frades) o controverso Oar ou o Ar:
Na freguesia de São Martinho de Goente:
E em Santa Cristina de Montouto (Abegondo):
O caraterístico de estes lugares, o de Santa Cristina de Montouto, São Martinho de Goente, Santo Estevo de Abelhã e o de São Pedro de Vilar, é a sua posição central das casas dentro da grande tapada, localização que é infrequente, o que levaria a pensar que neste tipo de granja seriam cuidados animais já com relativa mansidão.
A controvérsia: Isto aqui apresentado não dita com a antroponímia. Como pode ter sido que quatro lugares com conformação territorial semelhante, tenham sido fundados, possuídos, geridos por pessoas com um mesmo nome?
No caso da vila nomeada Casale de Oario, uma década depois de ser "dada" a Petrus, volta a ser aforada com o nome de Casale de Onorio:
...Et est ipsa hereditate territorio Prucius, vocitata Casale de Onorio, cognomento Ripa, subtus monte Breamo, iuxta Campo Longo...
O que faz pensar esta duplicidade Oario / Onorio em tão pouco tempo: se teria sido um intento do escrivão de grafar algo para ele desconhecido ou pouco habitual ou pôr um nome próprio o mais próximo ao nome "verdadeiro", também poderia ser um erro de cópia ou da transcrição moderna.
Vai ir aqui Casal do Eiro na freguesia de Santa Maria de Viladavil (Arçua):
Neste caso, como nos anteriores de Ar, o Casal do Eiro está no centro do território, que em parte modificados, perdidos, os seus limites parcialmente no lado sul, o que resta deles dá para perceber a unidade.
Hipótese que conclui, debaixo de esta toponímia Casal do Eiro e Casale de Oario, e os Ares, estaria a palavra protocéltica *aryos "pessoa que tem propriedades, nobre, não plebeu".
| Ares. |
et ideo nos supradictos, tibi Petrus, presbiter, facimus cartulam de nostra villa propria que habemus in territorio Prucius, inter duos fluvios Eume et Doronia, sub monte Breamo. Damus tibi ipsa villa vocitata Casale de Oario, in villa de Cermucu, concurrenciam Sancti Salvatoris, per ubi ea potueritis invenire per suis terminis et locis antiquis, cum quantum ad prestitum hominis est, intus et foris, per ubi eam obtinuerunt antecessores nostri; damus eam tibi que habeas nos in mente in tua oratione et pro que assidue et studiose missa et vigilias et vesperas exsolvas pro uno anno ibi in Sancto Matheo super corpus domno Luzio, et teneas ipsa villa in tota tua vita, et post obitum tuum caritatem fraternam tibi postulamus, et non sit tibi hodie
eiusdem ut habeant et possideant pacifice et quiete imperpetuum. Et est ipsa hereditate territorio Prucius, vocitata Casale de Onorio, cognomento Ripa, subtus monte Breamo, iuxta Campo Longo, media de ipsa hereditate, intus et foris, per ubi eam invenire potueritis, cum quantum ad prestitum hominis est. si quis tamen, quod fieri non credo, aliquis homo ex mea parte vel de aliena, contra hoc factum meum infringere temptaveit, sit
in lago IX modios seminatura et sua fonte et in agros de nabeba tres pedaços per seus tirmios et in o castro alia terra et in illa senrra d'ecclesia super canaria alio pedaço do adque concedo perpetualiter possidenda quisquam pontificum vel
976-7-26
Rodríguez Muñiz, Víctor, O mosteiro de Santa Cristina de Ribas de Sil na idade media, Ourense, Grupo Marcelo Macías, D.L. 2011



Sem comentários:
Enviar um comentário