....et in alia uilla Guntini misimus Guntino...
Esta é uma parte de Guntim de São Tiago de Meilão (-ám).
O bispo Odoario na sua "repopulação" de Lugo posterior à guerra vai mandando pessoas a gerir cada vila desocupada, ou melhor escrito cada uilla desocupada, uilla no sentido galaico da altura, uma unidade territorial menor.
A frase é chocante e que move os marcos:
...e noutra uilla Guntini enviámos Guntino...
Dando a ideia de que é a vila a que nomeia a quem a vai gerir, e não à inversa como comummente é tido por obrigado.
O tema da carta de repovoação de Odoário foi tratado neste blogue, onde se conclui, depois da leitura:
A hipótese, que aqui é exposta, é que o paradigma de que "o nome do possuidor nomeia a vila possuída", não é de obrigado cumprimento sempre. Pode haver casos nos que o nome (prévio) do lugar, alcunha, "cognomeia", à pessoa: o gentílico vira nome próprio.
O texto da repovoação vai rematando com:
unusquisque per istas uilla (sic) nomina de illos omines
Também neste blogue já foi tratado o lexema gund- / gond- na toponímia galega, que foi associado com várias hipóteses *kond-/kont-:
-Vasilha em forma de tigela, grande cunco, escudela; jerra.
Talvez todas as hipóteses são uma
só, e de uma primária palavra "estaca", derivou a vedação
paleolítica-neolítica de caça, dai ao rebanho guardado.
Outro dos pontos a expor neste escrito é sobre a uilla.
Estas uillas fundiárias, que aparecem registadas na época medieval, conservam a conformação de granjas neolíticas, que tão recorrentemente são mostradas neste blogue.
Segundo isto a uilla Gontini "a vila da paliçada / do rebanho", a *wella kontini neolítica, teria sido uma unidade territorial arcaica que chegou como tal à época medieval.
A imagem de acima é uma parte da uilla Gontini, pois a uilla Gontini final, a uilla total teria sido muito maior.
As iniciais tapadas pastorais (2) para animais semisselvagens, por vezes nascidas de coussos (1), armadilhas de caça, costumam mostrar ampliações (3).
A elite dessa célula territorial, ancestralmente pecuária, acaba por morar numa briga, que se pode situar nas proximidades, por vezes na ponta de um dos seus becos de ameijoada do gado, como é mostrado no escrito "Castro? Vai de ida ou vem de volta?"
Então neste caso poderia ser observadas:
Com o número 1: uma inicial *u̯el-, *u̯elə-, *u̯lē- com o significado de "torcer, dobrar" (Pokorny) no nível linguístico protoindo-europeu. (Paleolítico final -Neolítico)
Com o número 2: uma posterior *wella no nível linguístico protocéltico (Neolítico, Bronze). Haveria que considerar o italo-céltico e reparar na forma latina vēlla e no latim antigo da República veilla.
Com o número 3: uma uilla celto-galaica que chega até épocas medievais (geralmente confundida com a vīlla romana).
Sobre a vēlla latina Varrão escreve:
...Quocirca rustici etiam nunc viam veham appellant propter vecturam, et vēlla, non villa, quo vehunt et unde: velaturam facere etiam nunc dicuntur qui vecturis vivunt.
Que vem dizendo que os rústicos, os camponeses, pronunciam ou dizem vēlla, non villa porque os que vão à vila levando mercadorias são chamados de velatura (que noutro trecho acha por sua vez velatura ser uma corrutela de vectura "transporte"). E de velatura nasceria o erro de vella.
Que poderia ser certo, ou uma interpretação retorquida e rebuscada (talvez errada) para explicar um arcaísmo.
A uilla celto-galaica teria o seu par na galesa wella (escrita antiga ou anglizada) / gwely:Gwellinharat no condado de Shropshire é considerado ter sido Gwely Anharar, numa tradução literal a Vila de Anharat.
Gwely no galês designou historicamente "um
grupo de pessoas que, como descendentes de um antepassado comum,
trabalham um conjunto de terras e possuem gado; um clã, tribo ou
família; uma porção de terra tribal mantida em propriedade conjunta e chamada polo nome do patriarca de uma determinada linhagem".
Os gwelyau desapareceram no século XVI pola The Act of Union, que incorporou o País de Gales dentro do reino da Inglaterra.
Wele John ap Ithon foi um gwely que estivo em Penmachno no município de Conwy County Borough no norte do Gales, e nessa terra as partições cadastrais e os caminhos fundos desenham esta forma que tão habitualmente é mostrada neste blogue, uma grande tapada, uma granja neolítica, uma uilla.
Trata-se de mostrar com estes exemplos a ligação entre a uilla galaica (medieval) e o gwely galês.
O gwely como uma prolongação no tempo do direito da posse da terra da família que gere o antigo território da granja neolítica.
E no caso da uilla o explicado polo professor André Pena Granha como: um espaço jurisdicional indivisível, copropriedade de um grupo de parentesco. Sirva o exemplo a uilla Guntini, para onde o bispo Odoário enviou a Guntino.
Para a etimologia mais divulgada gwely nada teria a ver com a villa latina nem com uilla galaica.
Gwely tem uma dificuldade que é o seu duplo significado de "cama, leito" e de "unidade territorial", para a etimologia mais divulgada (Matasovic) o deslocamento é de leito para território.
A meu ver, e podo errar não haveria tal deslocamento, apenas uma plurivalência do caniço, cainço proto-céltico *wele como sebe e como leito.
Este tema já foi tratado no escrito Guilheto.
Uma via etimológica alternativa que procura dar uma visão mais integradora ou abrangente da da gwely galesa, da vīlla latina e da uilla galaica, apoia-se nas palavras britónicas: como a galesa gwialen ("vara, vime, galho, vergasta, cana, bastão, aguilhada; paliçada, sebe feita de varas)", a do córnico: gwelen ("esteio, poste, pontal"), e a do bretão gwial ("vara, vergasta").
Este
grupo céltico faz lembrar a palavra guilheto (na gíria dos canteiros:
"abrunheiro, espinho") o guilho ("espigão de ferro ou pedra que o
rodízio tem no seu couce sobre o qual realiza o giro") o asturiano guiyu (Diccionariu de la Llingua Asturiana: Guañu
[de la pataca]. 2 Pinchu, escayu [d’una planta]. 3 Aguiyón [de l’abeya,
de l’abriespa]. 4 Diente [d’un aperiu, d’una ferramienta]) guilhote ("espicha, o pau aguçado que fecha o buraco por onde sai o vinho nos barris") com paralelo em bilhote.
Confronte-se ainda com o protogermânico *bilją ("espigão, prego, cavilha").
Tudo isto sugere que a arcaica uilla corresponderia com um terreno com valo (ou vedação vegetal espinhosa em sebe, sebe trançada, ou estacas).
Abre-se
assim a hipótese de uma raiz primária *well- (ou similar) inicialmente
nome de um arbusto espinhoso ou envolvente, ou que faz sebe, de uma
estaca, de um pau aguçado, que teria ido deslocando os seus significados
polas suas transformações de uso, e também mudando a sua realização
fonética.
A raiz protoindo-europeia mais aproximada seria o lema de
Pokorny *u̯el-, *u̯elə-, *u̯lē- com o significado de "torcer, dobrar";
geralmente aplicada a galhos flexíveis, vimes e trepadeiras".
Confronte-se com aveleira, para quem a etimologia tradicional dá uma explicação um pouco rebuscada.