São João de Cárvia é uma freguesia no concelho de Vila de Cruzes, onde pode ser observada a estrutura de cousso (de caça) transformada em tapada por cerre da sua boca com a típica "beizoa":
Estes recintos talvez já do mesolítico são facilmente identificáveis nos desertos da Ásia central (planalto de Ustyurt) Médio Oriente e Saara, nessa altura terras com vegetação e fauna, são conhecidos por Desert Kites.
| Tirado de "The 'desert kites' of the Ustyurt plateau" . Barge, Olivier & Brochier, Jacques Elie & Deom, Jean-Marc & Sala, Renato & Karakhanyan, Arkadi & Avagyan, Ara & Plakhov, Konstantin. (2016). The 'desert kites' of the Ustyurt plateau. Quaternary International. 395. 10.1016/j.quaint.2015.06.010. |
Neste blogue estão a ser apresentados recintos similares (Na Galiza, e área atlântica: Cornualhes, Irlanda, Devon, Ilhas do Canal, Ilha de Man) que podem ser identificados graças a fotos aéreas e as divisões cadastrais que comumente respeitaram as paredes, muros, valos, valas de estes coussos.
A sua duração no tempo, a meu ver seria devida a continuidade das populações e a que os seus usos foram evolucionando sem muitos saltos, de coussos de caça, a terrenos onde mantes animais selvagens em catividade, daí a granjas neolíticas, e já com a domesticação, os seus valos, às vezes não na sua totalidade, serviram como defesas das culturas, no sistema de agras.
Talvez a extensão de estes pré-históricos coussos, tenha sido mais alargada do que polo de agora os estudos têm mostrado. Por exemplo pode ser observado um na famosa gravura rupestre de Alta (Noruega):
| Modificado de "Rock art: World Heritage in Alta". |
Voltando ao caso de Cárvia e pondo-lhe a toponímia...
...mostra o que noutros casos aparece e se repete, como a toponímia "atual" é condizente com o uso ancestral do cercado:
O frequente Casal na triplicidade de casa, capsa ou caça;
O habitual Lagoa e similares, que bem poderia estar a indicar o rego nascente de Avialha; ou como foi apontado no escrito d'o caso do Padernelo: toponímia com base em lag- poderia ser relacionada etimologicamente com o que idicaria o lag gaélico escocês "buraco, cavidade; covil, cave; poço, fosso; pequeno vale", protoindo-europeu de Pokorny: lā̆gh "cortar".
Outros nomes a salientar do lugar:
Zanca no seu significado próprio de sanja, pois isso é por onde correm os caminhos no lugar.
Sobre do Valo e Valinhas, o primeiro transparente a nomear as terras superiores a um hipotético valo que teria sido uma das modificações da construção cercada ancestral. Já Valinhas poderia ter a ver com vale ou como diminutivo de vala, foxo circundante.
Souto, tem a ideia mais direta de plantio de castinheiros, mas neste caso, como em outros mostrados neste blogue na análise de esta estrutura, Souto estaria a indicar um salto, um espaço entre dous valos, dos que um teria sido o mais antigo e outro uma reforma da tapada.
Quanto a Bieites, poderiam ser os terrenos propriedade de uma família assim apelidada. Ou poderia ser feito sobre bieito, com a triplicidade de significados: o Sambucus nigra, o rebento de uma planta, ou como lugar adjetivado de bento, talvez numa hipotética sacralidade.
Garcias, poderia levar o nome dos donos de esses terrenos. Ou segundo a sua posição topográfica, semelha ter sido um corte, uma vedação do beco ou braço norte do cousso:
E Garcias poderia ter sido Gárcias, numa ideia dada por gárcio "garfo de enxerto", com ligações no proto-céltico: *korkkyo- "aveia" e *korkiyos "garça"
Gaélico antigo: corca "aveia", coirce "aveia, crista, tufo, adorno de cabeça" / corr "garça"
Galês: ceirch "aveia" / crychydd, crechydd "garça"
Bretão: kerc'h "aveia" / kerc’heiz "garça".
A esta relação entre aveia-crista-tufo-garça, haveria que acrescentar garcia nome dialetal da garça na Galiza, junto com garcetas asturianas (e medievais galego-portuguesas) "cabelo comprido que cobre a caluga, a nuca"
-_Breeding_plumage-_in_Hyderabad,_AP_W_IMG_7665.jpg)
O que levaria a pensar numa ideia abrangente de estes significados na ideia de tufo, garfo, chuço, agudez.
Assim o epíteto para a raposa chamada de garcia, teria uma interpretação ligada à agudeza.
Já para finalizar, e desenvolvendo uma ideia esboçada no escrito "o caso dos Carvoeiros e outros", trata-se de explicar o nome de Cárvia.
No escrito anterior mencionado são analisados recintos similares ao mostrado nesta página, foram postos em relacionamento estes lugares com uma possível evolução no neolítico a "granjas de cervos" (recintos onde ter em catividade veados) como têm aparecido em escavações arqueológicas na Grão Bretanha, estes cercados primários, teriam ficado na toponímia sob nomes com base em carv-, interpretados muitas vezes com raiz em carvão ou carvalho, mas que poderia estar relacionados com o proto-céltico *karwos "cervo", em gaulês: caruu, carvos, no galês carws (com plural ceirw) em córnico karown (plural kerwys).
Assim o caso de Carvoeiro e Cerveiro de Abaixo, nas freguesias de São Jurjo de Goá e São Jião de Santa Cristina (Cospeito) ...
...estaria a mostrar um hipotético cousso de caça de cervídeos ou uma tapada onde manter veados inicialmente selvagens em catividade.
Fonte dos Carrouchos ou Fonte Carroucha em São Martinho de Calvos de Sobre Caminho (Arçua).
| Carouca / caroucha / carroucho (Lucanus cervus) *karow-occa / *karow-occu "cervuca / cervucha / cervinho". |
| Carroucha-de-mar (Eunicella verrucosa). |
| Carroucha (Codium tomentosum). |
Também nesse escrito foi mostrada a proximidade entre o proto-céltico *karwos "cervo" e a dialetal carba, ou seja cabra.
Segundo este fio anteriormente desenvolto....
... (São João de) Cárvia estaria a ter sob si *karw (o)-i-eh₂, um adjetival, ou sufixo marcador de nome abstrato, ou de indicação de território de, tipo *veádia *cérvia, "veadeira, cerveira". O que seria condizente com a funcionalidade da estrutura de caça, captura, catividade, repetidamente mostrada neste blogue.
São João de Cárvia está hoje com ortografia castelhana escrito "oficialmente" como Carbia. Nos documentos medievais com Caruia / Carvia.
Isto mostraria que alguns topónimos tipo Carvalho, associados a estes hipotéticos coussos / tapadas ancestrais, interpretados com base no nome da árvore, poderiam estar a ocultar uma raiz em *karwos "cervo".
Mais um outro exemplo neste caso o Salido da Cárvia (Salido da Carbia sob ortografia espanhola) em São Pedro de Sarandão (-om) (Vedra):
Onde Salido "eixido" teria a sua razão toponímica de ser.
Grato, desculpem as gralhas e erros.




