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Sanches

Em São Tiago de Paderne (Oça-Cessuras) um topónimo no que reparar é o das Sanches:




Onde como já foi mostrado no escrito "De algumas leituras que podem ser feitas em S. Tiago de Paderne" a possibilidade de ter havido três coussos enlaçados.
As Sanches daria nome ao beco leste do cousso central.

Sancho no âmbito peninsular é nome, dependendo dos lugares, para o porco, para o coelho e para carracha ou carrapato (sancho / sancha).
A sua etimologia é controversa.
Sim Sancho como nome pessoal na época medieval é derivado do latim Sanctius, na dúvida de poder ser uma adaptação de um nome não latino à escrita latinizante.
Uma hipótese a lançar aqui associaria a palavra sancho "porco, coelho, carracha" às palavras célticas:
No bretão sankañ "penetrar, chegar ao fundo, insertar" ou do galês sang "pisão, pisada com força, calcadela".
Na ideia de que os três animais aprofundam, penetram, já for bulando no caso do coelho e porco, ou picando no caso do carrapato.
Estas palavras célticas, hipoteticamente proto-céltico *sank,  além de poder estar na base do porco, coelho e carrapato, poderiam aparentar com sanja, e as suas outras realizações: jança, sangra, zangra, zanja, onde se calhar haveria que ressaltar zanca como nome para uma ravina ou rego, o vale polo que corre um ribeirinho, frequente a dar nome a lugares onde há um rego, a Zanca, também chanca como "poça, parte funda de uma ravina".
Isto ligaria com palavras germânicas como o sueco sänka  em substantivo "valigote" e como verbo "afundar, baixar".
No nórdico antigo sænkva "descer" que lhe é dada uma raiz protoindo-europeia *sengʷ- "afundar, cair" (confronte-se com sangra (sanja)).
Como noutros escritos foi apresentado com outras palavras, o chamativo da hipótese é que uma raiz protoindo-europeia, neste caso *sengʷ-, gera umas realizações variadíssimas num espaço territorial pequeno, o que poderia ser indicador da sua ancestralidade: sangra, sanja, jança, zangra, zanca, zanja, no âmbito asturiano: xanxa, fanxa, sanxa, zanxa, no castelhano: zanja, e no basco zanga, com os significados de "sanja, golo, mergulho, mascato".





Os Sanches de São Martinho de Goente (As Pontes de Garcia Rodrigues). Os Sanches cadastralmente aparecem referidos como os Zanches.



A Sancha de São Miguel de Goião (-ám) (Sárria), levará esse nome pelo rego?

Sancha de São Tiago de Landoi (Carinho), terá a ver o seu nome com as sanjas que o mapa sombreado marca?

A Rega da Sancha em Santo Adrião de Calvos (Fornelos de Montes), uma forma tautológica?



Rio do Sancho em Santa Maria de Nebra (Porto Doçom), rio de uma pessoa chamada de Sancho, ou rio da sanja, quase na tautologia?


Com o nome dos Sanchanes, talvez Sanchães (-ans) na aldeia da Aceia em Santa Maria de Meire (Alhariz), por onde corre a canle, o canal de evacuação da antiga aceia.

Sanchana, Sanchane no cadastro, na freguesia de Santa Cilha do Valadouro (Foz), terras ao lado do regueiro que forma o Rego do Pontigo. Se quadra, Sanchana tem numa ideia de *sanjana "da sanja?

O Sancho em Santa Maria de Ois (Coirós), neste caso o Sancho faz referência ao profundo vale pelo que vai o Mandeu? Ou ao cavorco que cai desde a Caresma?




Vila Sancho de São Tiago de Selho (Lalim), fazendo parte de uma grande tapada das comumente apresentadas neste blogue. Vila Sancho é considerada uma vila de uma pessoa chamada de Sancho; ora é condizente com a hipótese do significado apresentado no blogue de vila no âmbito galaico, do que teriam sido as primeiras vilas antes da ideia romana das tais, pode ser lido no escrito Guilheto:

A inicial vila teria a ver com bilha "estaca". Então as vilas e vilares do neolítico teriam sido estacadas, paliçadas.
Esta imagem levaria a pensar estacadas de caça, e posteriormente estacas que cercariam uma tapada para manter animais em catividade.
Se o palatio, paço, nasce de uma paliçada primitiva....
Uma sebe de *will, de paus aguçados ou espinhosos, também pudo ter servido para criação das primárias *willas, vilas, ou talvez antes do que vilas.
Assim um vilar entre outras cousas é:
En algunas comarcas llaman vilar a los campos de centeno que, después de sembrado, se cierran con un balado que no se derruba hasta que se siega, y queda el terreno a restreva o pallarega.
Leandro Carré Alvarellos (1979): Diccionario galego-castelán e Vocabulario castelán-galego, A Coruña, Moret


Vila Sancho, segundo a hipótese apresentada aqui seria a tapada do foxo, da sanja, pois estaria no beco de caça, ou captura da grande tapada que envolve o riacho de Cerquedo.
É chamativo o topónimo que está na cabeceira do ribeiro de Cerquedo, Cal Sanchez, que seria interpretável como cal do *sancho, cal da sanja.


Neste caso Vilazanche na freguesia de Santa Cruz de Moeche.
Com toponímia caraterística de estas vedações:
Costeira e Cacheira, já analisadas neste blogue.
Outros nomes que indicam a sua funcionalidade no passado remoto como grande vedação de caça ou captura: Paredes Velhas, Curruncho, a Cancela.
Ressaltar Amosa que bem poderia ser a Mossa, como marca.
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O Vale de Sanche no Santo Cristo da Misericórdia da Póvoa de Trives, vale polo que corre o rio Cavalar ou das Biocas. Neste caso duplamente em genitivo, Vale (de) Sanche?



Bom, todos estes exemplos em mapas intentam alicerçar a hipótese etimológica que daria uma visão dos topónimos de base sanch- relacionados com sanja.
No caso dos (aparentes) apelidos Sanches / Sanchez ou pensados como nomes Sancho, Sancha, poderiam ser abertos a este hipótese da sanja, em casos onde há vales ou rego de auga, tipo Moinho de Sanches, ou Picha (fonte) de Sanches, mesmo com zetacismo, Rego de Zancho, Moinho de Zancha.
Toponímia onde o Sanch-, sim poderia ser o nome de uma pessoa ou família, mas que também poderiam estar a indicar a existência de uma sanja.





O caso do Padernelo

O Padernelo é um lugar na freguesia de São Martinho de Churio (Irijoa).
No escrito anterior já foi apresentada uma hipótese sobre o topónimo frequente Paderne, que poderia ser observado desde o significado do genitivo latino paterni como "ancestral", assim sepulchra paterna, não são os sepulcros dos pais, e sim os sepulcros dos ancestres, dos ancestrais.

Ao visionar Padernelo desde as imagens do voo do 1956:

Pode ser identificada a estrutura que neste blogue estes últimos anos está a ser apresentada, um cousso, similar aos internacionalmente conhecidos por Deserts Kites:


Isto suporia, aceitando a hipótese de Padernelo ser o "ancestralzinho", que haveria uma consciência do devir do tempo, que haveria uma relativa memória do passado, e portanto uma continuidade.
Outro dos nomes aí visto é Casal, que bem pode ser um grupo de casas, mas que repetitivamente aparecem topónimos tipo casal ou casa associados a estas estruturas de caça, o que levou já a lançar a hipótese de que casa, caça e capsa sairiam do mesmo tronco etimológico, sendo a vida dos grupos nômades de caçadores-recolectores um caminhar de casa a casa, de etapa em etapa, de capsa de caça, a caixa de caça, de local de caça a local de caça.
Já o Cerro no beco, teria um significado transparente, indicando o cerre que envolve a armada.








Só mais dous microtopónimos:
Lagar
Alguns topónimos de base lagar na Galiza poderiam não fazer referência ao fabrico de sidra ou vinho, e talvez estariam a dar nome a outra ideia, estar o nome de Lagar no lugar final da armada de caça, poderia-o relacionar etimologicamente com o lag gaélico escocês "buraco, cavidade; covil, cave; poço, fosso; pequeno vale", protoindo-europeu Pokorny: lā̆gh "cortar". 






Casa do Golpe
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Golpe já foi analisado neste blogue como pertencente ao grupo de Ulfe:
A raiz das palavras para lobo, e não só, também para animal bravo em geral, no proto-indo-europeu partiriam de *wĺ̥kʷos. No germânico *wulfaz onde há uma transformação da consoante k em f, talvez um prévio ph ou um anterior p?
Assim para nomear um animal fero ou selvagem, poderia ter havido uma linha mais antiga: *wĺ̥kʷos.
Com dous descendentes:
- Uma linha Q: *wĺ̥-kos (confronte-se com urco ou o proto-eslavo*vьlkъ (vulku), sânscrito वृक (vṛ́ka) e वृष (vṛṣa).
- E uma linha P *wĺ̥-pos (confronte-se com volpe/golpe e lupus). É nesta linha P que *wĺ̥pos acabaria em dar *wĺ̥-phos e daí  *wĺ̥-fos (confronte-se com golfo e golfinho, com o gaélico escocês uilp, uilpean, uulp "raposo") e a linha germânica *wulfaz.

Estaríamos então diante de uma palavra com dous lexemas?
*wĺ̥kʷos: *wĺ̥ e -kʷos.

Assim palavras que dão nome à raposa, comumente concebidas como derivadas do latim vulpes, têm outra perspectiva como mais diretamente ligadas a 
*wĺ̥kʷos:
Urpe em lígure.
Olp, volp, golp em lombardo.
Golpe no dialeto de Sena.
Gorba e orba nos dialetos marchigiani.
/w'o.lə.pa/ em Alatri no mesmo Lácio, berço do latim.
/y'o.lə.pa/ em Campobasso (Molise).
Gurpe num dialeto sardo.
Gulp, wolp, nas falas romanches.
⁠⁠Goupil⁠, ⁠gopil⁠, gopile, gupil⁠, ⁠gouspil⁠, ⁠woupil⁠, ⁠wupil⁠, ⁠houpil⁠, ⁠hopil⁠, ⁠oupil⁠, ⁠golpil⁠, ⁠volpil⁠, ⁠vulpil⁠, ⁠holpil⁠, ⁠houplil⁠, ⁠gourpil⁠, ⁠gorpil⁠, ⁠guorpil⁠, ⁠vourpil⁠, ⁠vorpil⁠, ⁠vurpil⁠, ⁠worpil⁠, ⁠horpil⁠, ⁠ourpil⁠, ⁠welpis⁠, ⁠guerpil⁠, ⁠verpil⁠, ⁠werpil⁠, ⁠virpil⁠, ⁠grepil⁠, ⁠colpil⁠⁠, francês antigo.

Para Pokorny a raiz *ol- [ol-(e)-] teria o significado de "destruir", e mas também ol- [el-1, ol-, el-] teriam o significado de "vermelho, pardo, castanho".
Segundo isto *wĺ̥  -kʷos seria "o destruidor" ou "o apardado", dando-lhe à raiz -kʷos uma função derivativa adjetival, latim -cus, proto-céltico -kos.
Daí que em 
*wĺ̥kʷos poderia estar na raiz do nome de animais diversos ou mesmo fantásticos mas na ideia de animais caçáveis, perigosos, feros, como o urco, a orca, o urso, o volpe, o golfinhoo lobo ...
Isto dá para reparar na possível origem do nome de urca, usado em Trás-os-Montes para a égua, confronte-se com o proto-iraniano  *(w)ŕ̥šā "animal masculino", ou com o proto-germánico *hrussą "cavalo". Urca (*ulfa/*ulka) como nome da égua seguiria a mesma linha que a palavra besta que também nomeia à égua.
Então quando toponimicamente há um lugar com base em golpe, ou golpelha, pode ser devido à raposa, à vulpes, mas também poderia estar a referir-se à besta protoindo-europeia *wĺ̥kʷos que chegou até o hoje transformada foneticamente em golp-.
Assim Golpe seria uma forma genitiva 
*wĺ̥kʷe "o da besta, o da fera".
O que abre a pensar que a vulpes latina seja " a da *vulpa", um epíteto.

Ao estar a Casa do Golpe no hipotético beco de caça do cousso ancestral, daria uma ideia de continuidade, e que a pessoa talvez apelidada de Golpe, não foi quem deu nome à casa, ao contrário, o habitante da casa construída no lugar de Golpe, no lugar da caça da béstia, receberia o nome do lugar, da funcionalidade ancestral do lugar.
Isso abre a porta a que alguns nomes das casas nos lugares e aldeias estão a transmitir o microtopónimo funcional de esse sítio nos tempos passados.
(No blogue há alguns outros exemplos, como o da casa de Cousso).