© Copyright. Direitos autoriais.

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O carvalho, o rebolo, e o alvorário.


Carva / carba:
-Espécie de carvalho de folha miúda e madeira ruim.
-Ramos de árvore, ponlas com folhas cortadas antes da caída e estojadas para alimento do gado no inverno.
-E, deserto, monte pelado, monte de mato novo.

Carva é a palavra raiz velha existente no galego, no Berzo e no oriente, agachada.
No leonês carba é mato espesso.
A velha palavra orige pejorada, casualidade que for do gênero feminino?, o seu filho sufixado carinhosamente: carav-aculum (carvinho)?, colheu mais sona, e tirou do seu lugar à sua mãe léxica: carva. Que quedou em miúda e ruim, ou em monte logo dumha queima.
Zarba, trasmontanismo: sebe, mata de arbustos.


A orige da palavra é moi incerta:
1. O pré-latino Caraba* / carba, que dérom:
Garabolos, garavato, caravulho, carraboujo (coleóptero rei-rei, bulhaco).
Carabunhar / crabunhar, carabelho / carabilho (pau para trancar a porta), carabeira (ferramenta do ferreiro).
A caraba /carava, trasmontanismo: a sociedade, a companhia. O /a caraba: o amigo, a amiga, camarada. A carava é a camaradaria, talvez criada debaixo das velhas car'valhas câmaras, ou com relaçom com caravana.
Sardo 'carba' ramo grande. Basco 'karbanza' tronco

2. Do latim e do que originou a palavra Carvom:
Carba emparentada co grego Karpho (seco, ermo, árido, duro), karphos (palha) e o nosso adjetivo carval para definir o áspero vegetal seco, tojos, messes; boas escas. A esca, a isca, é o alimento do lume.
O radical KAR- tem o sentido de arder, está proximo a KAL- caldo.
Carbo, do proto-indo-europeu Ker- / Kern- queimar, do sânscrito Krsna, e com derivados no próprio nome latino do carvalho: quercus, co lugar das augas quentes de Aquis Querquernis.
No grego keraunos, fulgor, keramus, cerâmica.
Ker- é um radical que exprime dureza, talvez por ser ele a orige do lume, onde o kern-, o duro quere, quentar por friçom.

3. Cara: duro do sânscrito khar-as, do grego kra-naos (crânio), keras (quercus, cerqueiro): corno.
De Kern- Cervo, kriṣṇa, sânscrito, duro, corvo, Krishna.
Cara: do grego karax, pau. Caralho < characulum (pauzinho), emparentado com caractere e kern: corno.

4. Emparentada com línguas germânicas onde a raiz carve tem a ver com cortar, talar.
Atigo frisom kerva, alemám da costa do mar do Norte kerven, alemám kerben cortar, marcar.
Dumha hipotética base *gerebh- rabunhar, de onde o grego tem graphein para escrever, e estám os nossos caravulhos e grabatos.

5. Da raiz céltica que no irlandês originou a palavra  craobh, ramalho, ponla no gaélico irlandês e árvore no gaélico escocês.
Cráeb: ramo, ponla.
Cráebach: ramoso.

Atenda-se a abundancia da palavras no galego com lexema carab-, garab- garav-, garam-, ou mesmo híbridos como garipola.

Entom podemos dizer que carvalho, é segundo isto; um *craobhog-o.
Era um craobhóg, um ramo ao que se lhe engadiu um diminutivo, neste caso latino: craobh, craobhóg, *karaob(a)-uculus?

Também no tocariano-B karāk* "ponla"(1)

Eis a razão pola que em áreas da Galiza carvalho além de ser o Querqus robus, é qualquer outra árvore, é o nome genérico para as árvores. Confronte-se com "carvalho-enzevinho" que é nome do azevinho.
Parentes deste craobh gaélico está o galês: cyrfen, corfen, que significam ramo, galho, ponla. Cyrfen, corfen além de ramo também significa letra escrita, do mesmo jeito que no galego garavato é a letra imperfeita e um garaveto.
Este radical flexiona na mutação com as formas carab- garab- marav-, xara(v)-.
Assim o Tarvos trigaranos, está a dar o elo entre corno-galho e galho-ponla.
Pode-se perceber então o significado primário de garouto como *ramouto ou *galhouto


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Scarab- e carab-
, escarbar, escaravelho, cárabo, coleóptero, carocha.
O escaravelho, lavra, grava na madeira. Escarva ou escaravelha sobre a carva/carba, o reunido, a matéria.
O escaravelho liga-se co carvalho na etimologia e mais na vida, pois é dentro do carvalho e do carvalho que se alimenta e vive o rei dos escaravelhos: o escorna-bois.

Arar, araria-se com aras, pedras, atadas a umha madeira dura de carva.

Temos entom as idéias de lume e de dureza, dentro do carvalho, já seja por ser orige do carvom, por juntar ao seu redor.

O rebolo:
É de pensar que a cultura infantil primitiva determinou muito na fala?
O arremesso dos bugalhos, dos carraboujos, foi jogo, é, dos que andamos por carvalheiras.
Rebolar bulhacas, bolas e mais bolas.
Atiram-se bulhacras balísticas de diferentes tipos.
Rebola o pai
Rebola mãe
Rebola filha
Eu também sou da família
Também quero rebolar.

De tanto arrebolar, a árvore que transforma as suas folhas em bolhas, em bochas, a que permite a bulha e o bulício do jogo, no seu abeiro vira em rebolo!


Talvez mais atinadamente, rebolo desde o asturiano reboḷḷu, poderia ter uma origem em reborde ou rebordo, como outras árvores que apanham o nome do limite entre o primário lugar desmatado agrícola e o bosque. Dando assim uma ideia do primário robur, dando também uma ideia de ligação entre o ruderal e o rubro encarnado.

Variadíssimos nomes para as excrecências lançadas, carabujo, bulhacras ...
Duas famílias: as derivadas de bulha (bugalho, bulhaco ...), e as derivadas de *carva- / *car- ( carraboujo, carabujo ...).
Os ossos das prunas, grunhas, entram dentro do arremesso, mas já com certas precauçons, pois doem mais. Assi temos: carabunhas, carambunhas, caragunhas, crabunhas, caronho, carunhas, crunhas, cagunhas ...

Robur, vigor do corpo, robusto, rubro, ruber, encarnado, ígneo, a zona do roçamento.
Robur tamém é cárcere no latim, lugar de execuçom; terá que ver com brete, cepo?

Outro nome recebe o Quercus robur pola Galiza, o de landreiro, por dar landras.

Há um outro conjunto de nomes para o carvalho que dizem muito:
Alvarinho, alveirinho, verinho, virinho, vrinho, velinho, alvorário, e também as formas em epíteto de carvalho-alvar, carvalho-alvarinho, carvalho-alveiro.
O primeiro a pensar é que a raiz alv-, referem que o carvalho é alvo, branco... Mas o carvalho não é branco, de todas as variantes a mais chamativa para mim é alvorário.
A adjetivação chega a formas recolhidas como rebolo-alvar, (quase absurdas se concebemos alvo como apenas e unicamente branco), para falarmos do Quercus robur, quando rebolo / rebollu no âmbito da antiga Gallaecia é nome para o Q. pyrenaica. Isto indica uma qualidade que diferencia um do outro, e vistos os vistos é a altura, o rebolo-alvar vem dizendo o rebolo alteiro, rebolo altar.

Olhando de perto estes nomes, alvorário tem interesse, descompõe-se em alvor(e) + ário. Do que se pode entender que o carvalho é a árvore primigênia, arbolária?
Tanto na Galiza como em Trás os Montes existe a palavra álbore e a variante albre. Consideradas "vulgarismos" do latim arbor. E se for ao revês, que arbor seja um rotacismo de albor?, e se for que álbore é a palavra radical?
Lembremos o italiano albero, no espanhol tido como vulgarismo álbol, no provençal albre.
Por aqui pode andar o alvedro, (Arbutus unedo), mesmo o topônimo Alvedro pode ter a ver mais que com um lugar onde havia ervedos, um lugar alto, como é, desde o que se divisa, ou um alvoredo, com metátese. Ervedo pode explicar-se por evolução de alvedo / alvedro. No castelhano existe a forma alborto para o ervedo.
Assim o topónimo Erves tem a sua explicação, como lugar de árvores.
A ideia de Alvedro, como topônimo  de lugar elevado, ou boscoso aparece. Talvez é uma forma antiga de dizer arvoredo, alboredo, alb'redo, albedro.
Isto abre a possibilidade de que outros topônimos da sequência Alv-, Alvidrom, venham da palavra raiz de alpe.
Também há as palavras bidro e bidrão / bidrão para os vidoeiros....
Aqui outra vez todo conflui, é no galego popular tido por falar mal, albre que está a raiz de todas estas diferentes espécies de árvores, o carvalho alvorário e todas as variantes, do alvedro  e ervedo, do bidro e vidoeiro....














Craobh
Mutação da sequência:
carav-, carvalho, caravulho
garav-, gravulho, graveto
gharav-,
marav-, maravalha
(h)arab- (arabesa, arabega "tipo de arado"; aravias "apeiros de lavrança"; arabiado "o conjunto do jugo, molidas, e soveios/soveus")

xarav-: xara? lume

caram- caraminha
garam- garamata
gharam-
maram-?
haram-?, (ha)ram- rama


Drisa (antigo): carvalho. Dicionariado por Cuveiro Piñol no 1986.


(1)
karāk* (n.[m.sg.]) ‘branch’
[-, -, karāk//karākna, -, -] wrocc=āntseṃts karākna [lege: karākne?] (3a8), laitki atsi karakna [kus]e [nesäṃ] tne späntoṣä ‘vines, limbs, branches which are trusted here’ (554a4). ∎TchA karke and B karāk reflect PTch *kérākāin- and kérāk- respectively. (The PTch *e does not undergo -umlaut in TchA if stressed but does in B. The loss of the medial vowel in an open syllable is perfectly regular in TchA.) Both the phonological shape and the meaning suggest a possible connection of this word with 3kärk- ‘sprout.’ The semantic relationship is comparable in many ways to German zweig ‘branch’ < OHG zwīc ‘twig, sprout, cutting.’ If so, PTch *kérāk might reflect a putative PIE root noun *KorhxK-s if, as is certainly possible, 3kärk- reflects *Kṛhxk-. In addition we might note Lithuanian kárka ‘upper arm,’ Bulgarian krak, krak, Serbo-Croatian krâk ‘leg, femur’ (Balto-Slavic < *korhxko/eha-), Rumanian cra ‘leg,’ borrowed from Slavic, and its derivative cracă ‘branch,’ and possibly Albanian krah(ë) (m.) ‘arm, shoulder’ (if < *krhxk-sḱ-eha- or *korhxk-sḱ-eha- with metathesis? [Hamp (p.c.) takes krah and related krëhë to be from *krṇks- and *krenks- respectively and related to Rumanian (via some substratum) creanga- (pl. crengi) ‘branch’]). It would be reasonable to assume that we have a family of derivatives of *kreh1- ‘grow’ (P:577; MA:248-249). Somewhat similarly Hilmarsson (H:83) takes the Tocharian word to be a derivative of PIE *gherh1- ‘sprout, protrude,’ adducing OHG graz ‘sprout’ and SC grána ‘branch’ as cognates. Not with VW (189) from 2kärk- ‘bind’ (cf. Lithuanian ker̃gti) with the B karāk borrowed in some fashion from A karke (< *korgo-). See also kärk-3 and karāś*.

karāś* (n.[m.sg.]) ‘forest, woods’
[-, -, karāś//] karāś ynūcaṃ [ceṃ wnolmeṃts] ‘for [these] beings going [into] the woods’ (23a7), saṃsāräṣṣe karāśne ce tetrikoṣä ‘those lost in this saṃsāra-forest’ (212a4). ∎TchA kārāś and B karāś would appear to be from a PTch kārāś or *kerāś but further connections are unclear. It is usually taken as a borrowing from Khotanese karāśśa- ‘creeper, vine’ (so VW:625). However, the formation of karāśśa- is isolated within Khotanese (there is an Iranian *kar- which appears in Khotanese kīḍā- ‘creeper, bush’ < *karitaka- but Bailey, 1979, can offer no source for the -āśśa-). Perhaps we have here an old collective *Korhxkyom or the like, a derivative of the *Korhxks that gives karāk ‘branch,’ q.v. As ‘b(r)ushy place,’ ‘place full of branches, sprouts’ it would be a good description of the riparian thickets of the Tarim Basin to which karāś might natively have been applied. If so, perhaps Khotanese karāśśa- might be a borrowing from TchB rather than vice versa. Similarly H:84.


Quercus ou cercus/circus, poderiam estar na raiz do mesmo étimo.
No tocariano-B a palavra kerccī "palácio" e o quercus de cercus/circus:
Kerccī, do tocariano, é uma palavra em plural, mas tem um significado em singular (pluralia tantum) kerccī teria a ver com cercus / circus, com o grego κέρκος, que entre outros significados tem os de "estaca, paliçada" e com quercus, com o cerqueiro (cerqu-eiro) ou cerquinho (cerq-inho), o do *cerco, do mesmo jeito que mareiro ou marinho são do mar.
Confronte-se com aquilo da Calaica Nomina do professor Moralejo, paliçada e palácio ou paço, já neolítico.
A hipótese que o tocariano-B kerccī "palácio" abre, ao meu ver é explicada deste jeito, mas é apenas hipótese:
Quercus / circus seriam duas palavras distanciadas e chegadas ao latim por vias diferentes, uma seguramente própria e outra alheia.
De um protoindo-europeu *pérkus dizem vir quercus.
Se consideramos que as falas do Lázio e norte da Itália eram aparentadas com o proto-céltico, teriamos na família do céltico ou já protoindo-europeu occidental (celta-p/celta-q) um *pércus e um *kérkus.
Ou doutro modo: para circus há uma etimologia dada no grego κίρκος, de um protoindo-europeu *(s)ker- "rodear", que geraria o circus, talvez como palavra importada.
E por outra parte o *(s)ker (no celta-q) teria a forma parelha tal que *(s)per- (no celta-p), *(s)per- que poderia ter criado o *(s)per-kus "o rodeador, ou o rodeado", mais tarde quercus.
Seria pois de esperar a protoforma anterior à divergente *pérkus e *kérkus, tal que *Φérkus, ou também por caída do pê inicial *(p)erkus, presente nas falas célticas: *Φerkunyos, posterior Hercyna, Ercina (topónimos ástur-leoneses) com hipótese de significar "bosque".
Assim no gaulês erc-"carvalho", junto com Ercina abre a possibilidade que daí fosse gerada a encina no espanhol, a enzinheira, azinheira, nada a ver então como derivada de ilex, mas sim como cognado dela.
Sendo ilex, uma derivação de il-ex, genitivo femino antigo, "da il-", mas il-ex poderia ser evolução da raiz *Φer- (posteriores *(s)per / +(s)ker-), tal que *Φer-ix ir dar ilex, sendo *erix formadora da palavra erica e formadora da palabra ilex.
*Φer-ix




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