Este radical *barc(u) poderia explicar topónimos à beira de rios com o nome de barco e similares.
Outra hipótese dos topónimos fluviais barc- é explicada derivada de vasc- como é escrito aqui.
Outra hipótese para várzea e derivados vem da ideia que ainda estas palavras levam em si: a de terreo comunal partido.
Em Rio de Onor a várzea de prados à beira do rio era sorteada anualmente, quer dizer estava partida e cada ano, por rifa, cada parte de prado era atribuída a cada casa.
Assim:
Varzela, além de dar nome a uma pequena várzea (terras inundáveis chãs à beira de um rio) dá nome ao terreo comunal.
Varzial: é também um terreno comunal, e dá nome a uma uzeira. A lembrar que várzia / bárcia no galego dá nome à uz ou urze...
Hipótese:
No começo da agricultura e gadaria no neolítico, e com o aumento da população, começaria a haver espaços particulares com um reparto do comunal, tanto das terras de monte como das terras de veiga. Este reparto perdurou em maior ou menor grau até a chegada do sistema capitalista ao mundo camponês (em certas zonas perdurou ainda coas veigas, e em grande parte do pais galaico ainda nas figuras de monte comunal , monte em mão-comum, baldios...).
Apareceu então a partição e a palavra parte?
O latim oferece a palavra pars para a partição, as línguas célticas, desde uma posição inferiorizada, acham algumas pessoas que as estudam que as suas palavras semelhantes derivam do latim ou de uma adaptação da palavra latina. Ora o sistema de partição deveu ser geral a toda a região neolítica europeia muito antes de que Roma impusesse a sua hegemonia.
Assim no berço atlântico galaico a partição limitante deveu ser relativamente pronta devido a orografia e clima que permitiu uma ocupação quase total do território com usos agro-pastorais.
No proto-britônico é pensada a raiz *parθ para a partição que daria os atuais: bretão parzh, córnico e galês parth.
Sob a mutação da consoante inicial céltica estas palavras também são pronunciadas, grafadas, como por exemplo no galês: barth e mharth.
Isto explica que as palavras célticas de raiz *parθ- (parcela), tenha por par quase idêntico varz-/ barθ (varzela).
Por exemplo no gaélico escocês bàrd significa:
- cova limitante, o sulco que delimita e separa duas propriedades
- sebe, cerca
- terreno vedado, cercado
- guarnição militar
- corporação
E:
- várzea, prado ou terreno à veira de um rio ou estuário.
O gaélico escocês ligaria o bardado com a várzea, etimologicamente e historicamente.
Observe-se o paralelismo entre a palavra varge (varja, várzea de rio) e a palavra marge(m).
Esta partição, ou proto-propriedade privada inicial neolítica por sorteio anual é possível ser assim feita nas culturas do cereal, nos prados ou lugares de pasto.
Quanto às árvores, nos castinheiros ainda perdurou até os tempos atuais a propriedade privativa de uma árvore que medrou cuidada por uma pessoa dentro do terreno comunal, partição ainda de velhos castiros que chega a atribuir a cada família descendente de um ancestral, cada grande galho ou ponla da árvore anciã.
Uma dificuldade com a que esta partição anual deu foi com a cultura das videiras, pois as cepas são centenárias, e o seu cuidado ultrapassa a ideia de ano.
Aqui vai um exemplo de proto-cultura de vide quase comunal:
É a vinha de Requeixo em São Vreijo de Queiroãs (Alhariz). A vinha está murada em todo o seu redor e está ultra-partida, como é possível ser visto na foto-plano do lugar, nos mais dos casos cada gávia ou rego de videiras é de diferente propriedade.
Hipótese:
No neolítico inicial o sistema era mais gandeiro do que agrícola, isto explica as zonas especiais muradas para culturas de horta, as cortinhas, que ainda é possível identificar como estruturas de cento cinquenta metros de longo aproximadamente por vinte metros ou menos de largo, e de extremos arredondados.
A cultura das vinhas em zonas de gado requer estruturas de defensa, mesmo na época das uvas os muros são "bardados" pondo sobre eles gavelas de tojo ou silvas para limitação da entrada de cães ou do raposo.
Nesta imagem pode ser vista a Vinha e a sua relação com o curro de gando afunilado, (-mnd-) chamado: os Paçairos. Na ideia de gando em pastoreio livre durante o alargado período neolítico-ferro e agricultura em espaços murados e a de cereal como até há pouco, polo sistema de roça de terras "marginais" que mesmo servem de paça, no caso do centeio, durante a baixada alimentar invernal.
A disposição das casas no extremo do curro e o nome da população como Requeixo condiz que a sua denominação foi devida a esta situação referenciada com o grande curro.
Analisando a palavra várzea desde o asturiano: achamos a palavra barcia com as formas parelhas bardia e barda; palavras que se especializaram em dar nome à sebe, dalgum modo à margem, ao limite, à divisão, com o significado de sebe, silva, planta espinhosa e o mesmo que no galego vegetação espinhosa cortada disposta sobre muros para impedir o passo de animais.
Assim o asturiano relaciona diretamente barθ- / parθ- com bard- que também pode ser percebido no galego.
A barda, o bardal, o bardial, o bardaleiro, a bardanca, som peches das leiras feitos de sebe de tojos, de silvas enguedelhadas, de silbardos, ou inclusive o semeado dentro desse recinto, normalmente trigo.
Abardar: choer com barda; e desabardar: abrir o pechado.
Barda: armadura de cavalo.
Barda: estaca
Barda: pedra grande e plana.
Bardado: remate último de pedras que sobressaem no lousado para tornar a choiva.
Barda: pedra que sobressai no alto das alvariças, livre, para afugentar, ao ser pinçada, os ursos que tratem de agatunhar pola parede, normalmente som crias errantes que buscam novos territórios, os esbardos, que é o nome dos ursinhos novos.
Neste ponto é possível já ir percebendo a relação entre varzela na ideia de parcela e na cultura das vinhas a palavra barcela?
Palavra barcela que é a mesma que barcelo e bacelo. Estes três jeitos de dizer o mesmo nomeiam o terreo de vinha e nomeiam a vide nova plantada de tancheira / chanteira ou estaquinha e o comunal.
Também bacelo é definido como porção de terra que formava um pequeno feudo.
Tudo isto leva a pensar que o bacelo, barcelo ou barcela inicial do neolítico foi uma parcela, uma partição da propriedade comum. Posteriormente divergiu em ba(r)celo para as vinhas e em varz- para lugares de pasto ou cereal?
Esta hipótese dá coerência às palavras do espanhol marjal "medida agrária" e majuelo "vinha".
Na linha celta-p (parz-/barz- ) e celta-q, caberia esperar uma partição tipo karz-, confronte-se com cárcere, carzal /carçal, zarzo.
No tocariano B sarki taduzido como "trama, urdime" ajuda a perceber o aparente orfão zarzo "cainço, caniço" e a sarça, zarza castelhana, como planta que serve para atar, até o século passado assim usada logo de lhe tirar, ripar, as espinhas.
O reparto e os prados desde outra linha etimológica:
No estudo do protoindo-europeu a partícula *nem é considerada raiz para o conceito de "repartir, distribuir", é-lhe atribuído gerar:
O grego antigo νομή (nomḗ) "pradaria".
O sânscrito नम (náma) “terra de pastagem”.
Confrontem-se com namela.
Namela é uma palavra controversa com diferentes hipóteses para a sua origem:
- Ser uma variação de lamela.
- Derivar do protoindo-europeu *nem "partir", cognata do grego antigo e sânscrito, anteriormente apresentados, proto-céltico *nemeton "lugar sagrado".
- Derivada do protoindo-europeu *nebʰ- "humidecer", linha que derivaria em palavras para designar a nuvem, daí o céu, e o céu como morada de almas ou divindades (proto-céltico *nemos "céu, paraíso")
Poderia estar errado, mas acho que a palavra que denomina o objeto físico é primária, quero dizer o substantivo concreto poderia ser o inicial, para depois gerar, ir dar a palavras que expressam conceitos mais abstratos.
Então, νομή (nomḗ), नम (náma) e namela teriam sido secundários atendendo à hipótese nostrática *nan é "erva".
Estes lugares húmidos e de pastagem, inicialmente ervais naturais, espaços abertos para a caça, posteriormente coussos de caça, seguidamente tapadas para manter cativos animais semi-domesticados, acabaram virando terrenos repartidos por sortes anuais, quando a domesticação chegou à mansidão de hoje em dia. Prados repartidos como até há pouco tempo assim foram as várzeas de Rio de Onor.
São Cristovo de Neminha (Mugia) com a forma típica de cousso, tantas vezes apresentada neste blogue.
Neminha então seria uma *nem--iHna. "a da erva, a do prado, a da branha, a do lugar húmido".
Plano cadastral de Neminha antes da atual concentração parcelária.
O caso de São Tomé de Nemenho (Pontecesso):
Se Neminha é pequena, o caso de Nemenho apresenta-se como uma grande tapada, já sem as marcas do inicial cousso.
No caso de Santa Cristina de Nemenço (Compostela)poderiam ser observadas duas tapadas.


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