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De algumas leituras que podem ser feitas em São Tiago de Paderne (Oça-Cessuras).

Imagem aérea do chamado "voo americano" do 1956 de São Tiago de Paderne.

Na imagem pode ser observada a estrutura de grande tapada que neste blogue está sendo apresentada duns anos para aqui. Neste caso são três tapadas, uma maior com a boca para o norte e duas encostadas nos seus laterais, abertas para o sul.



Estas seriam as hipotéticas iniciais estruturas de caça do final do Paleolítico início do Neolítico, coussos, formas similares às divulgadas internacionalmente como Desert kites, armadas de caça passiva, como nassas, onde o animal ou o rebanho entra num espaço murado desenhado para que na sua intenção de saída acabem nos becos laterais onde há fossos ou é caçado à espreita.

O salto de cousso de caça (morte) a armadilha de captura (vida) é observado porque associados aos becos aparecem uns grandes curros que servem, serviriam, para manter os animais herbívoros em catividade, e assim dispor de um reservatório de alimento vivo (noutros escritos no blogue estes curros são apresentados, identificados, por exemplo aqui).
É esta transformação do recinto de caça a cercado de catividade, um indicador do Neolítico?
No caso de São Tiago de Paderne:




Esta imagem vai ser utilizada para a análise dos topónimos que nela aparecem, Dunho, Curral, Boucelo.

O caso de Dunho, faz-nos lembrar o proto-céltico  *dūnom, com a adaptação ou transcripção latina dunium. no significado de "bastião, fortaleza", se imos atrás nas línguas, a raiz protoindo-europeia para *dūnom é *dhuHno- "cercamento, cercado".
Então nesta paisagem de Dunho, conservou-se o nome protoindo-europeu do lugar, que aparece também toponimicamente "traduzido" como Curral Velho.
Quanto de velho é esse curral?
Se temos em conta as hipóteses ortodoxas, o Neolítico expande-se desde oriente a ocidente e chega à atual Galiza no V milénio aC.
Ora se o megalitismo está já a indicar a transformação cultural, do Paleolítico ao Neolítico, a Orquinha dos Juncais foi datada com uma antiguidade de 8.700 anos, o que situaria o Neolítico da faixa atlântica no VII milénio aC.
Curral Velho, para a palavra curro a etimologia clássica deriva-a de carro, como local onde se reúnem os carros ou carromatos, tendo havido uma transformação, deslocamento da palavra carro, carromato (Império Romano) a curro, curral, que aparecem grafadas no X (Baixa Idade Média). Segundo isto o nome duplo de Dunho / Curral (velho) estaria a indicar que quando a palavra curral aparece para dar nome a espaços para cercar animais (Baixa Idade Média), ainda haveria memória do que Dunho significava, dado que no século X a funcionalidade de esse espaço, como grande curro, estaria perdida, isto quereria dizer que no século X ainda palavras protoindo-europeias no céltico, eram faladas na Gallaecia.
Uma outra hipótese etimológica ou temporal, para curral / curro, tem a ver com o que curro significa também: "esquina, recanto". Isto liga o curro "canto" com as palavras célticas com o igual noção:
cwr (cy) : canto, esquina; aquilo que se estreita ou finaliza em um ponto; limite, borda, final, beira; lugar remoto
cùrr (gd) : canto, esquina: final, fim; fosso; poço de auga; situação, lugar
corr (ga)  : ponto de projeção; ângulo, bordo; cavidade, fosso, orifício; colina arredondada, montículo

Para estas palavras é dada uma raiz proto-céltica (Matasović) *kurro- "pontiagudo, saliente, aguçado".
Então na transformação do cousso de caça numa armada (grande armadilha) que permite manter animais vivos, observamos fisicamente, topograficamente, a transformação do *kurro "aguçado, canto, esquina, final, fosso, poço" no curro "curral", pois esse ângulo de caça com fosso inicial, esse um funil de caça, é transformado numa manga, num funil, que é porta do curral.


Continuando o processo temporal do cousso de caça a fase seguinte teria sido esta:
O cousso de caça muda em grande tapada, com três espaços cercados, que iniciariam o pastoralismo, onde animais selvagens em catividade, iriam sendo selecionados pola sua mansedume, principiando a domesticação.






Pondo a olhada no lado leste:
Boucelo, como pequena bouça.
Bouça tem uma etimologia controversa, aqui vai ser apresentada uma hipótese mais ou menos condizente com a topografia e funcionalidade que o Boucelo tivo / teve.
Bozada em leonês significa "rebanho, manada", o que leva a pensar na palavra amboças com parente no gaulês *botsa ou *bosta "cunco", talvez derivadas do proto-céltico *bostā "mão".
Sendo assim, ser a mão a raiz da manada, pelo passo de manada, quantidade colhida pelas mãos, mancheia, a quantidade indeterminada, e quantidade de animais.
Mão: manada.
*Bostā: bozada.
Se manada manata foi inicialmente a quantidade colhida pelas mãos, e dai derivou no grupo de animais, poderia ter-se dado o mesmo caso com  *bostā "mão" e amboças *ambostā "mão-cheia" e daí ser gerada bozada "rebanho, manada" e bouça "lugar onde guardar a manada, o rebanho".
Este terreno ao perder a sua utilidade do pastoralismo de animais selvagens, ao chegar à domesticação, ficou a monte, baldio, e perdurou por vezes sendo como inicialmente foi: comunal, mas também a sua inutilidade posterior a domesticação, evolucionou na sucessão vegetal, daí que tanto dê nome a uma carvalheira, como mais frequentemente a um lugar de mato, ou já como lugar de cultura cerealística, talvez ao manter os valos, sendo bouça sinônimo de seara nalgumas zonas.
Esta relação entre os conceitos de mão e manada, bostā e bozada, já foi mostrada neste blogue no escrito Mundo onde foi dada a hipótese duma linha que ligaria o proto-germânico *mundō "proteção, seguridade, mão" e o o hindi मुण्ड  (muṇḍa) "vacas em grupo ou círculo / vacas ou grupo de vacas" com exemplos toponímicos e topográficos abondosos do grupo Mundim.

Dos coussos menores encostados ao maior, vai ser analisado o do lado oeste:
De entre a microtoponímia destaca Pardinheiro que foi analisado neste blogue por exemplo no escrito "A Ulfe".
Outro nome chamativo é o de Mandeu / Mandeo.
Depois do escrito sobre a relação entre mão e manada, há que deixar aqui a palavra mada / manda "volume apreijado polas mãos" mas também "cardume de sardinhas", onde outra vez aparece a relação entre a mão e o grupo animal.
Assim Mandeu, atendendo ao sufixo latino -eus,  protoindo-europeu *-yos teria um significado adjetival poderia ser "para a manda / da manda / o que gera a manda, a quantidade".
Podemos comparar este Mandeu de São Tiago de Paderne com o Mandeu de Santo André de Roade (Sobrado dos Monges) lugar no que nasce o rio do mesmo nome, que sai ao mar na ria de Betanços:
Da toponímia que a imagem mostra, muita dela nesta blogue foi analisada. Aqui no Mandeu de Roade é chamativa a de Viajal, que faz pensar na viagem, por ser um caminho antigo que cruz a serra de Corno de Boi. Ora, etimologicamente viagem deriva do latim via que tem por raiz etimológica *weyh₁ "cachar, perseguir, dar fim". assim Viajal seria em protoindo-europeu o (lugar) da cachada, o *cachadal.




Outro dos nomes nos que reparar no cousso oeste é o de Paderne Velho.
Para a corrente antoponímica, Paderne derivaria do nome pessoal romano do amo possuidor de essas terras: Paternus.
Paderne Velho poderia ser percebido como o local onde teria estado situado antigamente o núcleo de população.
Ora saindo da antoponímia, paterni, além de significar "do pai" significa "do ancestre, ancestral, do antepassado", isto suporia que Paderne Velho estaria quase ou próximo à tautologia "do velho ancestral, do antepassado antigo".
A meu ver e na ideia de continuidade, que a paisagem pode alicerçar, os coussos multimilenares que determinam a estruturação do lugar, perdida a sua funcionalidade, seriam nomeados com este epíteto que marcaria o arcaico nele, paterni.
Quer dizer que aquelas pessoas que deram o nome de Paterni a esta zona, teriam um conhecimento de que os muros dos coussos, grandes valados, foram feitos na antiguidade, eram ancestrais, o que suporia haver um saber "histórico", talvez dos modos arcaicos de viver.
Nas duas imagens que vão a continuação, mostra-se como teriam sido os iniciais três coussos, dos que o central com o passo dos tempos teria sido o mais modificado, gerando uma tapada maior.




Sobre os nomes de Lagar e Paço: alguns topónimos de base lagar na Galiza não fariam referência ao fabrico de sidra ou vinho, e poderiam estar a dar nome ao rego do cousso, ou da posterior granja neolítica, com base em lago no seu significado de "regato ou canal artificial para regar campos", com o lag gaélico "buraco", protoindo-europeu Pokorny: lā̆gh "cortar". Quanto a Paço, aqui poderia ser intuída a continuidade desde um inicial *palatio, paliçada, que ao contrário de outros coussos ou tapadas com o devir do tempo não ficou repartida e passou a ser privativa de uma família, ou donos posteriores, que mantiveram total ou parcialmente a posse de uma unidade territorial grande ao longo dos tempos.






Para concluir:
A explicação etimológica dos topónimos pode ser ajudada pola topografia e pola identificação da funcionalidade do lugar nos tempos nos que teria recebido o seu nome.


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