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"Casale de Oario" ou "Casale de o Ario"?

 


Neste escrito vai ser lançada uma hipótese de como teria sido a partição privativa da terra associada à caça e posterior cativério e domesticação, tomando como cenário Cermuço e Ar da freguesia de São Pedro de Vilar (Ponte d'Eume).

Foi na análise de lugares como este da Vila Nova de São João de Camba (Rodeiro) que figérom pensar que aparentemente por diante de um primário cousso teria sido construída uma tapada maior. Numa hipótese de: uma vez perdida a funcionalidade da caça do recinto, já com animais domesticados ou semidosmesticados, cativos dentro do antigo cousso usado como cercado, teria havido a necessidade de alargar, ampliar, o terreno vedado para aumentar o número de cabeças, de reses.
Na imagem a Vila Nova nasce como um cercado maior ao talvez anterior Fonte Gemas, aproveitando os valos anteriores

Vila Nova de São João de Camba (Rodeiro) vila na ideia galaica, não na ideia romana: 
Assim um vilar entre outras cousas é:
En algunas comarcas llaman vilar a los campos de centeno que, después de sembrado, se cierran con un balado que no se derruba hasta que se siega, y queda el terreno a restreva o pallarega.
Leandro Carré Alvarellos (1979): Diccionario galego-castelán e Vocabulario castelán-galego, A Coruña, Moret.

Mas quanto de nova teria sido a Vila Nova?
A forma, tão arredondada, mas que ainda conserva becos, funis de captura, daria para pensar que os animais ainda requereriam um maneio como semisselvagens.
Ora poderia ser hipótese que  Fonte Gemas é um cousso de caça, e a Vila Nova uma granja neolítica.
Teria acontecido esta "reforma" numa altura na que a caça já perdera toda a sua relevância na alimentação.
Vila Nova seguindo esta hipótese teria nascido no Neolítico final, Bronze inicial, como *Willa *Nowiyam "paliçada nova, valo novo".


O caso aqui para apresentar é o de Cermuço e Ar, onde haveria um recinto superior no vale, anterior, a meu ver, já na possibilidade de ser secundário a um pequeno cousso (as Pedridas) e a uma outra vedação posterior: a de Ar 


Analisando Cermuço.
Cermuço aparece nos escritos do mosteiro de Caaveiro do século XII como Cermuco e Cermuezo (transcrito polos investigadores que editaram os seus trabalhos, recolhidos no CODOLGA).
Cermuço é um topónimo isolado, talvez aparentado com Sermã (-ám)?

A Sermã (-ám) de Santa Vaia de Donas (Gondomar)


Uma hipótese para Cermuço, e para a Sermã (-ám) atendendo à sua hipotética função pecuária, seria:
Protoindo-europeu *ser- "pôr juntos, ligar, unir, atar".
Protoindo-europeu *-mós / -mos (indica a ação de um verbo ou substantivo).
Assim *sermos "a ação de juntar, juntura, juntança, ligação, junção".
*Sermuço (diminutivo, pejorativo) "junçãozinha, juntancinha". Ou *Sermotium "o lugar da juntança".
*Sermana "a da juntança, a da reunião".



Cermuço teria posteriormente aos seus becos dous currais, no oeste Palácio, que conservou o ele intervocálico e não foi dar no frequente paço; e no lado leste Campo Longo que a sua forma já indica a razão. O topónimo Campo, com ser uma palavra genérica, que pode aparecer, dando nome a qualquer em qualquer lugar como microtopónimo, costuma, nos coussos e nas suas evoluções, dar nome aos becos e aos curros, currais, posteriores a estes vértices.
Outro dos topónimos frequentes associados a estas proto-granjas é Casa Velha, que na Sermã (-ám) tabém é possível ser observado.
Cermuço já teria nascido com um relativo pastoralismo, na função de ameijoar, acurrar, gerir, os animais que pasceríam no vale polo que corre o rio de Vidreiro.


Quanto a Ar:
Ar teria nascido como maior tapada já numa só peça, encerrando maior quantidade de território do que Cermuço, sem necessidade de pastoreio aberto;


Tapadas privativas do espaço similares a esta, poderiam ser granjas neolíticas, já foram frequentemente apresentadas no blogue:
São Gião de Cumbrãos (Sobrado dos Monges).

Então quando nas escrituras de Caaveiro, século XII:
....Damus tibi ipsa villa vocitata Casale de Oario, in villa de Cermucu, concurrenciam Sancti Salvatoris...
"Nós damos-lhe a mesma vila chamada Casal de Oário, na vila de Cermuço, lindantes com São Salvador / que concorrem a São Salvador".

Poderia ser inferido que vila de Cermuço é dona ou tem dentro de si a vila de Casal de Oário, como a hipótese pecuária mostraria.

O texto segue:
...per ubi ea potueritis invenire per suis terminis et locis antiquis, cum quantum ad prestitum hominis est, intus et foris, per ubi eam obtinuerunt antecessores nostri.
 "onde poderá encontrá-la dentro dos seus limites e lugares antigos, com quanto de prestação / utilidade / proveito é para homem, dentro e fora, onde os nossos antepassados ​​​​a obtiveram".

Disto também poderia ser concluído que a vila "Casale de Odoario" (vila no sentido galaico) tem uns limites ancestrais que mais ou menos poderiam ter chegado até o século XII, limites que talvez seriam os da granja do período neolítico ou do Bronze inicial.


Na documentação de Caaveiro no século XII, aparece então Casale de Oario, que daria o atual Ar, talvez por um genitivo tipo *(casale) oari, *oar, até o atual Ar?

Na freguesia de Abelhã (Frades) o controverso Oar ou o Ar:





Na freguesia de São Martinho de Goente:


E em Santa Cristina de Montouto (Abegondo):



O caraterístico de estes lugares, o de Santa Cristina de Montouto, São Martinho de Goente, Santo Estevo de Abelhã e o de São Pedro de Vilar, é a sua posição central das casas dentro da grande tapada, localização que é infrequente, o que levaria a pensar que neste tipo de granja seriam cuidados animais já com relativa mansidão.

A controvérsia: Isto aqui apresentado não dita com a antroponímia. Como pode ter sido que quatro lugares com conformação territorial semelhante, tenham sido fundados, possuídos, geridos por pessoas com um mesmo nome?

No caso da vila nomeada Casale de Oario, uma década depois de ser "dada" a Petrus, volta a ser aforada com o nome de Casale de Onorio:

...Et est ipsa hereditate territorio Prucius, vocitata Casale de Onorio, cognomento Ripa, subtus monte Breamo, iuxta Campo Longo...

O que faz pensar esta duplicidade Oario / Onorio em tão pouco tempo: se teria sido um intento do escrivão de grafar algo para ele desconhecido ou pouco habitual ou pôr um nome próprio o mais próximo ao nome "verdadeiro", também poderia ser um erro de cópia ou da transcrição moderna.

Vai ir aqui Casal do Eiro na freguesia de Santa Maria de Viladavil (Arçua):


Neste caso, como nos anteriores de Ar, o Casal do Eiro está no centro do território, que em parte modificados, perdidos, os seus limites parcialmente no lado sul, o que resta deles dá para perceber a unidade.

Hipótese que conclui, debaixo de esta toponímia Casal do Eiro e Casale de Oario, e os Ares, estaria a palavra protocéltica *aryos "pessoa que tem propriedades, nobre, não plebeu". 

Ares.










et ideo nos supradictostibi Petruspresbiterfacimus cartulam de nostra villa propria que habemus in territorio Pruciusinter duos fluvios Eume et Doroniasub monte BreamoDamus tibi ipsa villa vocitata Casale de Oarioin villa de Cermucuconcurrenciam Sancti Salvatorisper ubi ea potueritis invenire per suis terminis et locis antiquiscum quantum ad prestitum hominis estintus et forisper ubi eam obtinuerunt antecessores nostridamus eam tibi que habeas nos in mente in tua oratione et pro que assidue et studiose missa et vigilias et vesperas exsolvas pro uno anno ibi in Sancto Matheo super corpus domno Luzioet teneas ipsa villa in tota tua vitaet post obitum tuum caritatem fraternam tibi postulamuset non sit tibi hodie

eiusdem ut habeant et possideant pacifice et quiete imperpetuumEt est ipsa hereditate territorio Pruciusvocitata Casale de Onoriocognomento Ripasubtus monte Breamoiuxta Campo Longomedia de ipsa hereditateintus et forisper ubi eam invenire potueritiscum quantum ad prestitum hominis estsi quis tamenquod fieri non credoaliquis homo ex mea parte vel de alienacontra hoc factum meum infringere temptaveitsit


in lago IX modios seminatura et sua fonte et in agros de nabeba tres pedaços per seus tirmios et in o castro alia terra et in illa senrra d'ecclesia super canaria alio pedaço do adque concedo perpetualiter possidenda quisquam pontificum vel
976-7-26
Rodríguez Muñiz, Víctor, O mosteiro de Santa Cristina de Ribas de Sil na idade media, Ourense, Grupo Marcelo Macías, D.L. 2011


O caso de Cárvia (São João) com algo da continuidade mostrada polos coussos.

 



São João de Cárvia é uma freguesia no concelho de Vila de Cruzes, onde pode ser observada a estrutura de cousso (de caça) transformada em tapada por cerre da sua boca com a típica "beizoa":

Estes recintos talvez já do mesolítico são facilmente identificáveis nos desertos da Ásia central (planalto de Ustyurt) Médio Oriente e Saara, nessa altura terras com vegetação e fauna, são conhecidos por Desert Kites.
Tirado de "The 'desert kites' of the Ustyurt plateau" . 
Barge, Olivier & Brochier, Jacques Elie & Deom, Jean-Marc & Sala, Renato & Karakhanyan, Arkadi & Avagyan, Ara & Plakhov, Konstantin. (2016). The 'desert kites' of the Ustyurt plateau. Quaternary International. 395. 10.1016/j.quaint.2015.06.010. 

Neste blogue estão a ser apresentados recintos similares (Na Galiza, e área atlântica: Cornualhes, Irlanda, Devon, Ilhas do Canal, Ilha de Man) que podem ser identificados graças a fotos aéreas e as divisões cadastrais que comumente respeitaram as paredes, muros, valos, valas de estes coussos.
A sua duração no tempo, a meu ver seria devida a continuidade das populações e a que os seus usos foram evolucionando sem muitos saltos, de coussos de caça, a terrenos onde manter animais selvagens em catividade, daí a granjas neolíticas, e já com a domesticação, os seus valos, às vezes não na sua totalidade, serviram como defesas das culturas, no sistema de agras.

Talvez a extensão de estes pré-históricos coussos, tenha sido mais alargada do que polo de agora os estudos têm mostrado. Por exemplo pode ser observado um na famosa gravura rupestre de Alta (Noruega):

Modificado de "Rock art: World Heritage in Alta".


Voltando ao caso de Cárvia e pondo-lhe a toponímia...
...mostra o que noutros casos aparece e se repete, como a toponímia "atual" é condizente com o uso ancestral do cercado:
O frequente Casal na triplicidade de casa, capsa ou caça;
O habitual Lagoa e similares, que bem poderia estar a indicar o rego nascente de Avialha; ou como foi apontado no escrito d'o caso do Padernelo:  toponímia com base em lag- poderia ser relacionada etimologicamente com o que idicaria o lag gaélico escocês "buraco, cavidade; covil, cave; poço, fosso; pequeno vale", protoindo-europeu de Pokorny: lā̆gh "cortar". 
Outros nomes a salientar do lugar:
Zanca no seu significado próprio de sanja, pois isso é por onde correm os caminhos no lugar.
Sobre do Valo e Valinhas, o primeiro transparente a nomear as terras superiores a um hipotético valo que teria sido uma das modificações da construção cercada ancestral. Já Valinhas poderia ter a ver com vale ou como diminutivo de vala, foxo circundante.
Souto, tem a ideia mais direta de plantio de castinheiros, mas neste caso, como em outros mostrados neste blogue na análise de esta estrutura, Souto estaria a indicar um salto, um espaço entre dous valos, dos que um teria sido o mais antigo e outro uma reforma da tapada.
Quanto a Bieites, poderiam ser os terrenos propriedade de uma família assim apelidada.  Ou poderia ser feito sobre bieito, com a triplicidade de significados: o Sambucus nigra, o rebento de uma planta, ou como lugar adjetivado de bento, talvez numa hipotética sacralidade.
Garcias, poderia levar o nome dos donos de esses terrenos. Ou segundo a sua posição topográfica, semelha ter sido um corte, uma vedação do beco ou braço norte do cousso:
E Garcias poderia ter sido Gárcias, numa ideia dada por gárcio "garfo de enxerto", com ligações no proto-céltico: *korkkyo- "aveia" e *korkiyos "garça"
Gaélico antigo: corca "aveia", coirce "aveia, crista, tufo, adorno de cabeça" / corr "garça"
Galês: ceirch "aveia" / crychydd, crechydd "garça"
Bretão: kerc'h "aveia" / kerc’heiz "garça".
A esta relação entre aveia-crista-tufo-garça, haveria que acrescentar garcia nome dialetal da garça na Galiza, junto com garcetas asturianas (e medievais galego-portuguesas) "cabelo comprido que cobre a caluga, a nuca"


O que levaria a pensar numa ideia abrangente de estes significados na ideia de tufo, garfo, chuço, agudez.
Assim o epíteto para a raposa chamada de garcia, teria uma interpretação ligada à agudeza.

Já para finalizar, e desenvolvendo uma ideia esboçada no escrito "o caso dos Carvoeiros e outros", trata-se de explicar o nome de Cárvia.
No escrito anterior mencionado são analisados recintos similares ao mostrado nesta página, foram postos em relacionamento estes lugares com uma possível evolução no neolítico a "granjas de cervos" (recintos onde ter em catividade veados) como têm aparecido em escavações arqueológicas na Grão Bretanha, estes cercados primários, teriam ficado na toponímia sob nomes com base em carv-, interpretados muitas vezes com raiz em carvão ou carvalho, mas que poderia estar relacionados com  o proto-céltico *karwos "cervo", em gaulês: caruucarvos, no galês carws (com plural ceirw) em córnico karown (plural kerwys).
Assim o caso de Carvoeiro e Cerveiro de Abaixo, nas freguesias de São Jurjo de Goá e São Jião de Santa Cristina (Cospeito) ...

...estaria a mostrar um hipotético cousso de caça de cervídeos ou uma tapada onde manter veados inicialmente selvagens em catividade.

Fonte dos Carrouchos ou Fonte Carroucha em São Martinho de Calvos de Sobre Caminho (Arçua).

Carouca / caroucha / carroucho (Lucanus cervus) *karow-occa / *karow-occu "cervuca / cervucha / cervinho".


Carroucha-de-mar (Eunicella verrucosa).


Carroucha (Codium tomentosum).


Também nesse escrito foi mostrada a proximidade entre o proto-céltico *karwos "cervo" e a dialetal carba, ou seja cabra.
Segundo este fio anteriormente desenvolto....

... (São João de) Cárvia estaria a ter sob si *karw (o)-i-eh₂, um adjetival, ou sufixo marcador de nome abstrato, ou de indicação de território de, tipo *veádia *cérvia, "veadeira, cerveira". O que seria condizente com a funcionalidade da estrutura de caça, captura, catividade, repetidamente mostrada neste blogue.
São João de Cárvia está hoje com ortografia castelhana escrito "oficialmente" como Carbia. Nos documentos medievais com Caruia / Carvia.
Isto mostraria que alguns topónimos  tipo Carvalho, associados a estes hipotéticos coussos / tapadas ancestrais, interpretados com base no nome da árvore, poderiam estar a ocultar uma raiz em  *karwos "cervo".

Mais um outro exemplo neste caso o Salido da Cárvia (Salido da Carbia sob ortografia espanhola) em São Pedro de Sarandão (-om) (Vedra):



Onde Salido "eixido" teria a sua razão toponímica de ser.


Grato, desculpem as gralhas e erros.

As Sanches

Em São Tiago de Paderne (Oça-Cessuras) um topónimo no que reparar é o das Sanches:




Onde como já foi mostrado no escrito "De algumas leituras que podem ser feitas em S. Tiago de Paderne" a possibilidade de ter havido três coussos enlaçados.
As Sanches daria nome ao beco leste do cousso central.

Sancho no âmbito peninsular é nome, dependendo dos lugares, para o porco, para o coelho e para carracha ou carrapato (sancho / sancha).
A sua etimologia é controversa.
Sim Sancho como nome pessoal na época medieval é derivado do latim Sanctius, na dúvida de poder ser uma adaptação de um nome não latino à escrita latinizante.
Uma hipótese a lançar aqui associaria a palavra sancho "porco, coelho, carracha" às palavras célticas:
No bretão sankañ "penetrar, chegar ao fundo, insertar" ou do galês sang "pisão, pisada com força, calcadela".
Na ideia de que os três animais aprofundam, penetram, já for bulando no caso do coelho e porco, ou picando no caso do carrapato.
Estas palavras célticas, hipoteticamente proto-céltico *sank,  além de poder estar na base do porco, coelho e carrapato, poderiam aparentar com sanja, e as suas outras realizações: jança, sangra, zangra, zanja, onde se calhar haveria que ressaltar zanca como nome para uma ravina ou rego, o vale polo que corre um ribeirinho, frequente a dar nome a lugares onde há um rego, a Zanca, também chanca como "poça, parte funda de uma ravina".
Isto ligaria com palavras germânicas como o sueco sänka, em substantivo "valigote", e como verbo "afundar, baixar".
No nórdico antigo sænkva "descer" que lhe é dada uma raiz protoindo-europeia *sengʷ- "afundar, cair" (confronte-se com sangra (sanja)).
Como noutros escritos foi apresentado com outras palavras, o chamativo da hipótese é que uma raiz protoindo-europeia, neste caso *sengʷ-, gera umas realizações variadíssimas num espaço territorial pequeno, o que poderia ser indicador da sua ancestralidade: sangra, sanja, jança, zangra, zanca, zanja; no âmbito asturiano: xanxa, fanxa, sanxa, zanxa, no castelhano: zanja, e no basco zanga, com os significados de além de sanja, "golo, mergulho, mascato". No aragonês sanxa, sancha é uma vasilha para mugir o leite.





Os Sanches de São Martinho de Goente (As Pontes de Garcia Rodrigues). Os Sanches cadastralmente aparecem referidos como os Zanches.



A Sancha de São Miguel de Goião (-ám) (Sárria), levará esse nome pelo rego?

Sancha de São Tiago de Landoi (Carinho), terá a ver o seu nome com as sanjas que o mapa sombreado marca?

A Rega da Sancha em Santo Adrião de Calvos (Fornelos de Montes), uma forma tautológica?



Rio do Sancho em Santa Maria de Nebra (Porto Doçom), rio de uma pessoa chamada de Sancho, ou rio da sanja, quase na tautologia?


Com o nome dos Sanchanes (talvez Sanchães (-ans) ou Sanchanas em transcrição à espanhola da pronúncia não interferida pelo castelhano /sɐŋ.'t͡ʃa.nɐs/ ou  /sɐŋ.'t͡ʃa.nəs/   na aldeia da Azeia em Santa Maria de Meire (Alhariz), por onde corre a canle, o canal de evacuação da antiga azeia ou moinho.

Sanchana, Sanchane no cadastro, na freguesia de Santa Cilha do Valadouro (Foz), terras ao lado do regueiro que forma o Rego do Pontigo. Se quadra, Sanchana tem numa ideia de *sanjana "da sanja?

O Sancho em Santa Maria de Ois (Coirós), neste caso o Sancho faz referência ao profundo vale pelo que vai o Mandeu? Ou ao cavorco que cai desde a Caresma?




Vila Sancho de São Tiago de Selho (Lalim), fazendo parte de uma grande tapada das comumente apresentadas neste blogue. Vila Sancho é considerada uma vila de uma pessoa chamada de Sancho; ora é condizente com a hipótese do significado apresentado no blogue de vila no âmbito galaico, do que teriam sido as primeiras vilas antes da ideia romana das tais, pode ser lido no escrito Guilheto:

A inicial vila teria a ver com bilha "estaca". Então as vilas e vilares do neolítico teriam sido estacadas, paliçadas.
Esta imagem levaria a pensar estacadas de caça, e posteriormente estacas que cercariam uma tapada para manter animais em catividade.
Se o palatio, paço, nasce de uma paliçada primitiva....
Uma sebe de *will, de paus aguçados ou espinhosos, também pudo ter servido para criação das primárias *willas, vilas, ou talvez antes do que vilas.
Assim um vilar entre outras cousas é:
En algunas comarcas llaman vilar a los campos de centeno que, después de sembrado, se cierran con un balado que no se derruba hasta que se siega, y queda el terreno a restreva o pallarega.
Leandro Carré Alvarellos (1979): Diccionario galego-castelán e Vocabulario castelán-galego, A Coruña, Moret


Vila Sancho, segundo a hipótese apresentada aqui seria a tapada do foxo, da sanja, pois estaria no beco de caça, ou captura da grande tapada que envolve o riacho de Cerquedo.
É chamativo o topónimo que está na cabeceira do ribeiro de Cerquedo, Cal Sanchez, que seria interpretável como cal do *sancho, cal da sanja.


Neste caso Vilazanche na freguesia de Santa Cruz de Moeche.
Com toponímia caraterística de estas vedações:
Costeira e Cacheira, já analisadas neste blogue.
Outros nomes que indicam a sua funcionalidade no passado remoto como grande vedação de caça ou captura: Paredes Velhas, Curruncho, a Cancela.
Ressaltar Amosa que bem poderia ser a Mossa, como marca.
.
.

O Vale de Sanche no Santo Cristo da Misericórdia da Póvoa de Trives, vale polo que corre o rio Cavalar ou das Biocas. Neste caso duplamente em genitivo, Vale (de) Sanche?



Bom, todos estes exemplos em mapas intentam alicerçar a hipótese etimológica que daria uma visão dos topónimos de base sanch- relacionados com sanja.
No caso dos (aparentes) apelidos Sanches / Sanchez ou pensados como nomes Sancho, Sancha, poderiam ser abertos a este hipótese da sanja, em casos onde há vales ou rego de auga, tipo Moinho de Sanches, ou Picha (fonte) de Sanches, mesmo com zetacismo, Rego de Zancho, Moinho de Zancha.
Toponímia onde o Sanch-, sim poderia ser o nome de uma pessoa ou família, mas que também poderiam estar a indicar a existência de uma sanja.





O caso do Padernelo

O Padernelo é um lugar na freguesia de São Martinho de Churio (Irijoa).
No escrito anterior já foi apresentada uma hipótese sobre o topónimo frequente Paderne, que poderia ser observado desde o significado do genitivo latino paterni como "ancestral", assim sepulchra paterna, não são os sepulcros dos pais, e sim os sepulcros dos ancestres, dos ancestrais.

Ao visionar Padernelo desde as imagens do voo do 1956:

Pode ser identificada a estrutura que neste blogue estes últimos anos está a ser apresentada, um cousso, similar aos internacionalmente conhecidos por Deserts Kites:


Isto suporia, aceitando a hipótese de Padernelo ser o "ancestralzinho", que haveria uma consciência do devir do tempo, que haveria uma relativa memória do passado, e portanto uma continuidade.
Outro dos nomes aí visto é Casal, que bem pode ser um grupo de casas, mas que repetitivamente aparecem topónimos tipo casal ou casa associados a estas estruturas de caça, o que levou já a lançar a hipótese de que casa, caça e capsa sairiam do mesmo tronco etimológico, sendo a vida dos grupos nômades de caçadores-recolectores um caminhar de casa a casa, de etapa em etapa, de capsa de caça, a caixa de caça, de local de caça a local de caça.
Já o Cerro no beco, teria um significado transparente, indicando o cerre que envolve a armada.








Só mais dous microtopónimos:
Lagar
Alguns topónimos de base lagar na Galiza poderiam não fazer referência ao fabrico de sidra ou vinho, e talvez estariam a dar nome a outra ideia, estar o nome de Lagar no lugar final da armada de caça, poderia-o relacionar etimologicamente com o lag gaélico escocês "buraco, cavidade; covil, cave; poço, fosso; pequeno vale", protoindo-europeu Pokorny: lā̆gh "cortar". 






Casa do Golpe
.
Golpe já foi analisado neste blogue como pertencente ao grupo de Ulfe:
A raiz das palavras para lobo, e não só, também para animal bravo em geral, no proto-indo-europeu partiriam de *wĺ̥kʷos. No germânico *wulfaz onde há uma transformação da consoante k em f, talvez um prévio ph ou um anterior p?
Assim para nomear um animal fero ou selvagem, poderia ter havido uma linha mais antiga: *wĺ̥kʷos.
Com dous descendentes:
- Uma linha Q: *wĺ̥-kos (confronte-se com urco ou o proto-eslavo*vьlkъ (vulku), sânscrito वृक (vṛ́ka) e वृष (vṛṣa).
- E uma linha P *wĺ̥-pos (confronte-se com volpe/golpe e lupus). É nesta linha P que *wĺ̥pos acabaria em dar *wĺ̥-phos e daí  *wĺ̥-fos (confronte-se com golfo e golfinho, com o gaélico escocês uilp, uilpean, uulp "raposo") e a linha germânica *wulfaz.

Estaríamos então diante de uma palavra com dous lexemas?
*wĺ̥kʷos: *wĺ̥ e -kʷos.

Assim palavras que dão nome à raposa, comumente concebidas como derivadas do latim vulpes, têm outra perspectiva como mais diretamente ligadas a 
*wĺ̥kʷos:
Urpe em lígure.
Olp, volp, golp em lombardo.
Golpe no dialeto de Sena.
Gorba e orba nos dialetos marchigiani.
/w'o.lə.pa/ em Alatri no mesmo Lácio, berço do latim.
/y'o.lə.pa/ em Campobasso (Molise).
Gurpe num dialeto sardo.
Gulp, wolp, nas falas romanches.
⁠⁠Goupil⁠, ⁠gopil⁠, gopile, gupil⁠, ⁠gouspil⁠, ⁠woupil⁠, ⁠wupil⁠, ⁠houpil⁠, ⁠hopil⁠, ⁠oupil⁠, ⁠golpil⁠, ⁠volpil⁠, ⁠vulpil⁠, ⁠holpil⁠, ⁠houplil⁠, ⁠gourpil⁠, ⁠gorpil⁠, ⁠guorpil⁠, ⁠vourpil⁠, ⁠vorpil⁠, ⁠vurpil⁠, ⁠worpil⁠, ⁠horpil⁠, ⁠ourpil⁠, ⁠welpis⁠, ⁠guerpil⁠, ⁠verpil⁠, ⁠werpil⁠, ⁠virpil⁠, ⁠grepil⁠, ⁠colpil⁠⁠, francês antigo.

Para Pokorny a raiz *ol- [ol-(e)-] teria o significado de "destruir", e mas também ol- [el-1, ol-, el-] teriam o significado de "vermelho, pardo, castanho".
Segundo isto *wĺ̥  -kʷos seria "o destruidor" ou "o apardado", dando-lhe à raiz -kʷos uma função derivativa adjetival, latim -cus, proto-céltico -kos.
Daí que em 
*wĺ̥kʷos poderia estar na raiz do nome de animais diversos ou mesmo fantásticos mas na ideia de animais caçáveis, perigosos, feros, como o urco, a orca, o urso, o volpe, o golfinhoo lobo ...
Isto dá para reparar na possível origem do nome de urca, usado em Trás-os-Montes para a égua, confronte-se com o proto-iraniano  *(w)ŕ̥šā "animal masculino", ou com o proto-germánico *hrussą "cavalo". Urca (*ulfa/*ulka) como nome da égua seguiria a mesma linha que a palavra besta que também nomeia à égua.
Então quando toponimicamente há um lugar com base em golpe, ou golpelha, pode ser devido à raposa, à vulpes, mas também poderia estar a referir-se à besta protoindo-europeia *wĺ̥kʷos que chegou até o hoje transformada foneticamente em golp-.
Assim Golpe seria uma forma genitiva 
*wĺ̥kʷe "o da besta, o da fera".
O que abre a pensar que a vulpes latina seja " a da *vulpa", um epíteto.

Ao estar a Casa do Golpe no hipotético beco de caça do cousso ancestral, daria uma ideia de continuidade, e que a pessoa talvez apelidada de Golpe, não foi quem deu nome à casa, ao contrário, o habitante da casa construída no lugar de Golpe, no lugar da caça da béstia, receberia o nome do lugar, da funcionalidade ancestral do lugar.
Isso abre a porta a que alguns nomes das casas nos lugares e aldeias estão a transmitir o microtopónimo funcional de esse sítio nos tempos passados.
(No blogue há alguns outros exemplos, como o da casa de Cousso).