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Castro da Casilha

 O Castro da Casilha é comummente referenciado a Nadela, mas faz parte da freguesia de São Pedro de Santa Comba (Lugo) .

Recentemente nele foi arqueologicamente descoberta uma longhouse datada no Bronze.



Vai ser aqui intentado dar uma imagem da paisagem humana nessa altura, para um melhor entendimento de como teria sido a vida quotidiana na altura do Bronze.

Esta imagem:

polas suas divisões cadastrais desenha esta forma, que neste blogue está sendo apresentada desde há uns anos:


Então, a norte está a Meda Velha que desenha um cousso menor com beco em Corvelhe.
Sobre Corvelhe e topónimos de base corv- neste blogue já foi tratado o tema, concluindo a possibilidade de que parte da tanta toponímia de base corv-, associada ao corvo, fosse de raiz protocéltica *karwos "cervo".
Esta Meda Velha teria sido a origem da primária granja pecuária neolítica, posterior ao cousso, por vedação da sua boca e transformação numa chousa ou tapada.
Posteriormente a Meda Velha teria sido alargada, incrementada para o seu sul.
O aparecimento de um castro num do becos laterais da granja pecuária neolítica foi tratado no escrito "Castro? Vai de ida ou vem de volta?" Onde são mostrados numerosos exemplos topográficos de tal plano ou desenho do espaço neolítico que se prolonga até o Bronze, Ferro e Idade Média com a mostrada uilla fundiária, nos escritos anteriores a este.

Para uma interpretação (que é uma repetição do apresentado neste blogue):
O gado inicial, veados, auroques ou uros, cavalos, seria gerido como animais selvagens em cativeiro dentro de uma grande tapada, este gado para ser atendido seria acurrado nos becos, bicos laterais da grande tapada a jeito das chamadas mangas de maneio.
A população neolítica, do Bronze, Ferro, assenta neste ponto, pois é o local principal de gestão pastoral, é o lugar de sacrifício também; é o lugar que na atualidade está por vezes ocupado por uma igreja ou capela.
Então o trabalho pecuário seria mais bem um cuidado dos valos perimetrias da grande tapada, e um controlo mínimo dos animais do seu interior.
Este modelo de "economia" permitiria uma camada de população que poderia viver sem dedicar tempo a produzir alimento, mas que seguiria vivendo diretamente ligada com o seu espaço "familiar" no ponto "crítico" da tapada, nos seus bicos de captura e maneio.

Surpreende a continuidade, polo topónimo Casilha, por haver nesse ponto uma casilha de lagoeiro. Este tema das casilhas serem uma continuação das paragens nas vias do neolítico e anteriormente dos coutos e coussos de caça nómada do paleolítico final, vias que mais tardiamente viraram "caminhos reais", e hoje estradas, foi tratado no escrito "O caso da caça e das casilhas. Begonte e Cáceres", onde são apresentados numerosos casos de esta toponímia e de esta organização das vias.

Para o meu amigo David.





....et presimus alia uilla de mazedoni et posuimus mazedonio...

 Continuando com a identificação das uilla da repovoação do Bispo Odoário, no documento escreve: et presimus alia uilla de mazedoni et posuimus mazedonio...
E no mesmo documento: Idcirco edificare precepimus ecclesiam Sancte Eolalie de Macedoni ubi posuimus Macedonio et ipsam uilla integra stipata de familia nostra per suis terminis antiquis ab omni integritate. 

A atual Santalha de Maçói / Santa Eulália de Maçói, no século XIII como Sancta Eolalia de Mazon ou Sancta Eolalia de Mazoi.



Mazói / Maçói.

O relevante da estrutura da uilla Mazedoni é o seu grande tamanho.
Podem ser observadas três fases:
1 Um primeiro cousso já grande com evolução de um dos seus becos a castro / claustro (São Vicente de Pias), infelizmente destruído pola auto-estrada (dentro do recinto 1 há um castro conhecido como "os Castros").



2 Um acrescentamento da sua boca, com becos em Corral de Arriba e Corral de Abaixo a oeste, e em Cacabelos a leste.



3 Um terceiro acrescentamento que daria uma forma de semicírculo ao conjunto de Maçói, com esquina em Pinheiro.

A etimologia de Macedónia vai ao protoindo-europeu  *meh₂ḱ- "incrementar, aumentar / longo". 
Nesta raiz está o grego μᾰκρός (măkrós).
Esta ideia de grande, longo, aumento é condizente com a imagem de Maçói, uilla na que teria acontecido um acrescentamento da inicial tapada de caça (número 1).
No protocéltico pode ser citado o verbo *maketi "incrementar" (Matasović *mak-o-).
Maçói, Mazedoni, poderia indicar uma raiz no protoindo-europeu *mehk-ti--Hō "incrementação", sendo a forma do século VIII Mazedoni um genitivo com o significado "da incrementação", como a sede, capital, lugar gestor, da uilla da incrementação.

Então agora o texto do mandato da edificação da igreja a Santa Eulália pode ser compreendido:
Idcirco edificare precepimus ecclesiam Sancte Eolalie de Macedoni ubi posuimus Macedonio et ipsam uilla integra stipata de familia nostra per suis terminis antiquis ab omni integritate. 


Onde se reitera que em é em Santa Eulália de Macedoni onde "pusemos / pugemos" a Macedonio.
Mas também qualifica a uilla de stipata, com duas possibilidades a uilla integramente cheia, com tudo; ou uilla cercada.
Outro ponto é o de terminis antiquis, que a meu ver seriam os termos neolíticos, onde antiquis remete a um tempo ultra-antigo do que haveria memória.


Esta hipótese leva a questionar que toda a toponímia do grupo Maceda / Macedo, tenha a ver com maçã, por exemplo no século X cita-se a uilla de Macedi.



Macedo /mɐ'θɛdʊ/ de São Martinho dos Condes (Friol).

Maceda de São Cibrão de Monte Cubeiro (Castro Verde).



São Pedro de Maceda (no Corgo).



Maceira de Santa Maria do Alto de Gestoso (Monfero), com acrescentamentos observáveis, desde um primário cousso com curro circular num dos seus becos (evolução frequente) de nome Giro.
De uma raiz protoindo-europeia *meh₂ḱ- *-eh₂so -yéh₂ : *mehkesyéh "*incrementeira, grandeira". Protocéltico *mak-o- *-āria: *makaria "o lugar do incremento".



Então:
- Não toda a etimologia da família de Maceda teria ver com maçã, alguma está sediada no protoindo-europeu *meh₂ḱ- , protocéltico *mak-o- ("incremento, grande, longo").
- O gestor da uilla Mazedoni, recebe um cognome novo pola uilla que governa, a qual é uma uilla aumentada, longa, grande.
É a uilla Mazedoni a que dertermina o gentílico mazedonio.




....et in Desteriz Desterico....

 
Continuando com a repovoação de Odoário, neste caso Distriz na freguesia de São Tiago de Meilão (Lugo), que no texto aparece como Desteriz.

Outros Desterizes ou já Distrizes:


Santo André de Distriz (Monforte de Lemos).
 


Distriz, terras em São Pedro de Vêndia, Bencia na ortografia espanholizada (Castro de Rei).




São Martinho de Distriz (Vilalva).


Podendo errar, a interpretação das imagens leva a pensar no latim (acusativo) dextrum / dexterum com o sufixo divulgado como germânico -iz, ainda que há a teoria de ser pré-latino, dexter-iz "da direita".
Ou dada a ancestralidade da tapada, como um protoindo-europeu *deḱs-tero-s, confronte-se com o grego δεξιτερός "aquilo (oposicionalmente) da direita" versus  δεξιός (direita).

 δεξιός  grego tem o par protocéltico *dexswos, protoindo-europeu *deḱs(i)-wó-s.
Que levaria a interpretar Santa Maria de Dexo (Oleiros) como também de esta família?





Sob a hipótese alicerçada no documento de repovoação de Odoario,
...unusquisque per istas uilla (sic) nomina de illos omines...
que levaria a entender que cada pessoa gestora ou governadora de uma uilla recebe o (cog)nome dela, da uilla: Os Destericos medievais galaicos primários teriam sido os habitantes de Desterizes, Distrizes, posteriormente os descendentes deles fazendo referência à uilla da sua linhagem, à unidade familiar coproprietária ou usufrutuária de um espaço territorial, jurisdicional indivisível.
Assim o microtopónimo talvez céltico, traduzido posteriormente ao latim,
que daria nome ao beco direito da uilla, acabaria dando nome à vila inteira no caso dos Distrizes de São Tiago de Meilão (Lugo) de Santo André (Monforte) e São Martinho (Vilalva). No caso de Distriz de São Pedro de Vêndia, estaria na dúvida se o local foi habitacional, em alguma altura relevante e decaiu, ou se foi desde um início secundário, talvez perdida a sua funcionalidade ao ser alargada a uilla no seu lado leste, como pode ser intuído na imagem, e ficar o beco deslocado a Quintela.

....et in alia uilla Guntini misimus Guntino...

 ....et in alia uilla Guntini misimus Guntino...





Esta é uma parte de Guntim de São Tiago de Meilão (-ám).

O bispo Odoario na sua "repopulação" de Lugo posterior à guerra vai mandando pessoas a gerir cada vila desocupada, ou melhor escrito cada uilla  desocupada, uilla no sentido galaico da altura, uma unidade territorial menor.
A frase é chocante e que move os marcos:
...e noutra uilla Guntini enviámos Guntino...
Dando a ideia de que é a vila a que nomeia a quem a vai gerir, e não à inversa como comummente é tido por obrigado.
O tema da carta de repovoação de Odoário foi tratado neste blogue, onde se conclui, depois da leitura: 

A hipótese, que aqui é exposta, é que o paradigma de que "o nome do possuidor nomeia a vila possuída", não é de obrigado cumprimento sempre. Pode haver casos nos que o nome (prévio) do lugar, alcunha, "cognomeia", à pessoa: o gentílico vira nome próprio.

O texto da repovoação vai rematando com:
unusquisque per istas uilla (sic) nomina de illos omines


Também neste blogue já foi tratado o lexema gund- / gond- na toponímia galega, que foi associado com várias hipóteses *kond-/kont-:

1.Poderia ser do grupo do latim contus e grego κοντός (kontós) "poste, estaca, chuço, aguilhada".
Sânscrito कुन्त (kunta) "lança".
2. Poderia ser do grupo do sânscrito कुण्ड (kunda) :
-Vasilha em forma de tigela, grande cunco, escudela; jerra.
- Buraco na terra, buraco na terra para fazer lume, buraco na terra para um ritual de consagração do lume; buraco para conter água, piscina, açude.
3. Poderia ser da raiz de esconder, latim condo condere "juntar; construir, estabelecer, fundar; esconder; concluir".
4. Poderia ser da raiz de gunda / munda como: rebanho, vedação, (hindi मुण्ड (muṇḍa) "vacas em grupo ou círculo / vacas ou grupo de vacas" / sânscrito मुण्ड (mund).

Talvez todas as hipóteses são uma só, e de uma primária palavra "estaca", derivou a vedação paleolítica-neolítica de caça, dai ao rebanho guardado.

Outro dos pontos a expor neste escrito é sobre a uilla.
Estas uillas fundiárias, que aparecem registadas na época medieval, conservam a conformação de granjas neolíticas, que tão recorrentemente  são mostradas neste blogue.

Segundo isto a uilla Gontini "a vila da paliçada / do rebanho", a *wella kontini neolítica, teria sido uma unidade territorial arcaica que chegou como tal à época medieval.
A imagem de acima é uma parte da uilla Gontini, pois a uilla Gontini final, a uilla total teria sido muito maior.
As iniciais tapadas pastorais (2) para animais semisselvagens, por vezes nascidas de coussos (1), armadilhas de caça, costumam mostrar ampliações (3).
A elite dessa célula territorial, ancestralmente pecuária, acaba por morar numa briga, que se pode situar nas proximidades, por vezes na ponta de um dos seus becos de ameijoada do gado, como é mostrado no escrito "Castro? Vai de ida ou vem de volta?"

Então neste caso poderia ser observadas:
Com o número 1: uma inicial *u̯el-, *u̯elə-, *u̯lē- com o significado de "torcer, dobrar" (Pokorny) no nível linguístico protoindo-europeu. (Paleolítico final -Neolítico)
Com o número 2: uma posterior *wella no nível linguístico protocéltico (Neolítico, Bronze). Haveria que considerar o italo-céltico e reparar na forma latina vēlla e no latim antigo da República veilla.
Com o número 3: uma uilla celto-galaica que chega até épocas medievais (geralmente confundida com a vīlla romana).

Sobre a vēlla  latina Varrão escreve:
...Quocirca rustici etiam nunc viam veham appellant propter vecturam, et vēlla, non villa, quo vehunt et unde: velaturam facere etiam nunc dicuntur qui vecturis vivunt.

Que vem dizendo que os rústicos, os camponeses, pronunciam ou dizem vēlla, non villa porque os que vão à vila levando mercadorias são chamados de velatura (que noutro trecho acha por sua vez velatura ser uma corrutela de vectura "transporte"). E de velatura nasceria o erro de vella.
Que poderia ser certo, ou uma interpretação retorquida e rebuscada (talvez errada) para explicar um arcaísmo.

A uilla celto-galaica teria o seu par na galesa wella (escrita antiga ou anglizada) / gwely:


Gwellinharat no condado de Shropshire é considerado ter sido Gwely Anharar, numa tradução literal: a Vila de Anharat.
Gwely
no galês 
designou historicamente "um grupo de pessoas que, como descendentes de um antepassado comum, trabalham um conjunto de terras e possuem gado; um clã, tribo ou família; uma porção de terra tribal mantida em propriedade conjunta e chamada polo nome do patriarca de uma determinada linhagem".
Os gwelyau desapareceram no século XVI pola The Act of Union, que incorporou o País de Gales dentro do reino da Inglaterra.


Wele John ap Ithon foi um gwely  que estivo em Penmachno no município de Conwy County Borough no norte do Gales, e nessa terra as partições cadastrais e os caminhos fundos desenham esta forma que tão habitualmente é mostrada neste blogue, uma grande tapada, uma granja neolítica, uma uilla.







Trata-se de mostrar com estes exemplos a ligação entre a uilla galaica (medieval) e o gwely galês.
O gwely como uma prolongação no tempo do direito da posse da terra da família que gere o antigo território da granja neolítica.
E no caso da uilla o explicado polo professor André Pena Granha como: um espaço jurisdicional indivisível, copropriedade de um grupo de parentesco. Sirva o exemplo a uilla Guntini, para onde o bispo Odoário enviou a Guntino.





Para a etimologia mais divulgada gwely nada teria a ver com a villa latina nem com uilla galaica.
Gwely tem uma dificuldade, que é o seu duplo significado de "cama, leito" e de "unidade territorial", para a etimologia mais divulgada (Matasović) o deslocamento é de leito para território.
A meu ver, e podo errar não haveria tal deslocamento, apenas uma plurivalência do caniço, cainço proto-céltico *wele como sebe e como leito.
Este tema já foi tratado no escrito Guilheto.
Uma via etimológica alternativa que procura dar uma visão mais integradora ou abrangente da gwely galesa, da vīlla latina e da uilla galaica, apoia-se nas palavras britónicas: como a galesa gwialen ("vara, vime, galho, vergasta, cana, bastão, aguilhada; paliçada, sebe feita de varas)", a do córnico: gwelen ("esteio, poste, pontal"), e a do bretão gwial ("vara, vergasta").
Este grupo céltico faz lembrar a palavra guilheto (na gíria dos canteiros: "abrunheiro, espinho") o guilho ("espigão de ferro ou pedra que o rodízio tem no seu couce sobre o qual realiza o giro") o asturiano guiyu (Diccionariu de la Llingua Asturiana: Guañu [de la pataca]. 2 Pinchu, escayu [d’una planta]. 3 Aguiyón [de l’abeya, de l’abriespa]. 4 Diente [d’un aperiu, d’una ferramienta]) guilhote ("espicha, o pau aguçado que fecha o buraco por onde sai o vinho nos barris") com paralelo em bilhote.
Confronte-se ainda com o protogermânico *bilją ("espigão, prego, cavilha").

Tudo isto sugere que a arcaica uilla corresponderia com um terreno com valo (ou vedação vegetal espinhosa em sebe, sebe trançada, ou estacas).
Abre-se assim a hipótese de uma raiz primária *well- (ou similar) inicialmente nome de um arbusto espinhoso ou envolvente, ou que faz sebe, de uma estaca, de um pau aguçado, que teria ido deslocando os seus significados polas suas transformações de uso, e também mudando a sua realização fonética.

Sadgrove Farm, Bucklebury
Então a palavra que dá nome à sebe trançada, que é um cainço, pode deslocar o seu significado a leito, a cama. De feito o caniço trançado de varas flexíveis de castinheiro, aveleira ou vimes, é um tipo de cama rústica documentado.

A raiz protoindo-europeia mais aproximada seria o lema de Pokorny *u̯el-, *u̯elə-, *u̯lē- com o significado de "torcer, dobrar"; geralmente aplicada a galhos flexíveis, vimes e trepadeiras".
Confronte-se com aveleira, para quem a etimologia tradicional dá uma explicação um pouco rebuscada.



Xarda?

 No Courel, xardelo é o lardo, a camada de grassa que tem o porco sob a pele, a grassa do toucinho.
Xardelo lembra um intento de aproximar com pronúncia galega o falar asturiano do "chê vaqueiro". O lardo, ḷḷardiu nas Astúrias ou em Llaciana como /'t͡saɾ.di.ʊ/.
Isto leva a pensar que a xarda, como peixe com grassa, e a sardinha, em zonas do Morraço xardinha, teriam a ver com o lardo. 
Assim a xardinha / sardinha seria um jeito de dizer lardinha. E a xarda, larda. E o xardelo, lardelo.

 

 

Rego de Ameneiros, também chamado Rio de Ameneiros, a sua Ordes e outras Ordes

 



 
Rego de Ameneiros na freguesia de Santa Maria da Capela (Toques) mostra uma conformação em cousso, ou granja neolítica, como as continuamente apresentadas.
Esta estruturação do espaço vai ser utilizada para tratar de buscar explicações ao nome de Ordes, no intento de ligar a funcionalidade ou a utilização ancestral, com a razão, o motivo, do topónimo ser o que é.


Antes de começar, neste lugar poderia ser intuído um primário cousso que foi agrandado em duas fases marcadas (há mais transformações) no lado oeste, que foi ampliado até chegar a uma tapada neolítica.





Ordes fica no beco, no bico oeste, também fazendo parte do que seria um alargamento, agrandamento da tapada. No lado leste: Abucide que já foi tratado neste outro escrito.
Sobre o topónimo Ordes já se tem tratado neste blogue, este nome costuma aparecer no beco da tapada ou como curro.
Aqui pouco mais será feito do que recolher e ampliar um pouco o já escrito noutras postagens:
Poderia ter a ver com o latim ordo, ordinis "série, grupo, tropa". Sairia da raiz do protoindo-europeu *h₂er "união". Podendo ter a ver com  a raiz toponímica do grupo herdo, herdade (unidade territorial  una, indivisa).
Neste caso de Ordes de Rego de ameneiros, teria sido o lugar da ameijoada do rebanho, onde o gado seria ordenado "agrupado", contado, organizado, despachado, acomodado, melhor mirado.
Para reparar em ordenha. Já no galego-português medieval aparece a variação ordenar / ordinar / ordiar / ordinhar, para o atual verbo ordenar, mas para mugir, para ordenhar: ordenar e ordennar.
Pode ser enlaçado que no lugar da ameijoada, em Ordes, seria onde teria acontecido a ordenha.

Então, o lugar com o nome de Ordes mais conhecido (na Galiza), Santa Maria de Ordes, capital do concelho do mesmo nome.

Outros casos:
As Ordes em  Santa Maria de Novela (Santisso).



Ordes em Santa Maria de Luazes (Pol).





As Órdias em São Tiago de Couxelo (Riba d'Eu)



As Órdias em São Tiago de Landoi (Carinho) com Orjeiro no beco da possível ampliação. Isto levaria a postular que alguns topónimos tidos por derivados do orjo, latim hordeum, poderiam estar a ocultar um luar de ameijoada, de ordenha, de ordenação do gado, com base em orde-.


"Casale de Oario" ou "Casale de o Ario"?

 


Neste escrito vai ser lançada uma hipótese de como teria sido a partição privativa da terra associada à caça e posterior cativério e domesticação, tomando como cenário Cermuço e Ar da freguesia de São Pedro de Vilar (Ponte d'Eume).

Foi na análise de lugares como este da Vila Nova de São João de Camba (Rodeiro) que figérom pensar que aparentemente por diante de um primário cousso teria sido construída uma tapada maior. Numa hipótese de: uma vez perdida a funcionalidade da caça do recinto, já com animais domesticados ou semidosmesticados, cativos dentro do antigo cousso usado como cercado, teria havido a necessidade de alargar, ampliar, o terreno vedado para aumentar o número de cabeças, de reses.
Na imagem a Vila Nova nasce como um cercado maior ao talvez anterior Fonte Gemas, aproveitando os valos anteriores

Vila Nova de São João de Camba (Rodeiro) vila na ideia galaica, não na ideia romana: 
Assim um vilar entre outras cousas é:
En algunas comarcas llaman vilar a los campos de centeno que, después de sembrado, se cierran con un balado que no se derruba hasta que se siega, y queda el terreno a restreva o pallarega.
Leandro Carré Alvarellos (1979): Diccionario galego-castelán e Vocabulario castelán-galego, A Coruña, Moret.

Mas quanto de nova teria sido a Vila Nova?
A forma, tão arredondada, mas que ainda conserva becos, funis de captura, daria para pensar que os animais ainda requereriam um maneio como semisselvagens.
Ora poderia ser hipótese que  Fonte Gemas é um cousso de caça, e a Vila Nova uma granja neolítica.
Teria acontecido esta "reforma" numa altura na que a caça já perdera toda a sua relevância na alimentação.
Vila Nova seguindo esta hipótese teria nascido no Neolítico final, Bronze inicial, como *Willa *Nowiyam "paliçada nova, valo novo".


O caso aqui para apresentar é o de Cermuço e Ar, onde haveria um recinto superior no vale, anterior, a meu ver, já na possibilidade de ser secundário a um pequeno cousso (as Pedridas) e a uma outra vedação posterior: a de Ar 


Analisando Cermuço.
Cermuço aparece nos escritos do mosteiro de Caaveiro do século XII como Cermuco e Cermuezo (transcrito polos investigadores que editaram os seus trabalhos, recolhidos no CODOLGA).
Cermuço é um topónimo isolado, talvez aparentado com Sermã (-ám)?

A Sermã (-ám) de Santa Vaia de Donas (Gondomar)


Uma hipótese para Cermuço, e para a Sermã (-ám) atendendo à sua hipotética função pecuária, seria:
Protoindo-europeu *ser- "pôr juntos, ligar, unir, atar".
Protoindo-europeu *-mós / -mos (indica a ação de um verbo ou substantivo).
Assim *sermos "a ação de juntar, juntura, juntança, ligação, junção".
*Sermuço (diminutivo, pejorativo) "junçãozinha, juntancinha". Ou *Sermotium "o lugar da juntança".
*Sermana "a da juntança, a da reunião".



Cermuço teria posteriormente aos seus becos dous currais, no oeste Palácio, que conservou o ele intervocálico e não foi dar no frequente paço, na ideia primária de paliçada; e no lado leste Campo Longo que a sua forma já indica a razão. O topónimo Campo, com ser uma palavra genérica, que pode aparecer dando nome a qualquer terra aberta, em qualquer lugar como microtopónimo, costuma, nos coussos e nas suas evoluções, dar nome aos becos e aos curros, currais, posteriores a estes vértices.
Outro dos topónimos frequentes associados a estas proto-granjas é Casa Velha, que na Sermã (-ám) tabém é possível ser observado.
Cermuço já teria nascido com um relativo pastoralismo, na função de ameijoar, acurrar, gerir, os animais que pasceríam no vale polo que corre o rio de Vidreiro.

Quanto a Ar:
Ar teria nascido como maior tapada já numa só peça, encerrando maior quantidade de território do que Cermuço, sem necessidade de pastoreio aberto;


Tapadas privativas do espaço similares a esta, poderiam ser granjas neolíticas, já foram frequentemente apresentadas no blogue:
São Gião de Cumbrãos (Sobrado dos Monges).

Então quando nas escrituras de Caaveiro, século XII:
....Damus tibi ipsa villa vocitata Casale de Oario, in villa de Cermucu, concurrenciam Sancti Salvatoris...
"Nós damos-lhe a mesma vila chamada Casal de Oário, na vila de Cermuço, lindantes com São Salvador / que concorrem a São Salvador".

Poderia ser inferido que vila de Cermuço é dona ou tem dentro de si a vila de Casal de Oário, como a hipótese pecuária mostraria.

O texto segue:
...per ubi ea potueritis invenire per suis terminis et locis antiquis, cum quantum ad prestitum hominis est, intus et foris, per ubi eam obtinuerunt antecessores nostri.
 "onde poderá encontrá-la dentro dos seus limites e lugares antigos, com quanto de prestação / utilidade / proveito é para homem, dentro e fora, onde os nossos antepassados ​​​​a obtiveram".

Disto também poderia ser concluído que a vila "Casale de Odoario" (vila no sentido galaico) tem uns limites ancestrais que mais ou menos poderiam ter chegado até o século XII, limites que talvez seriam os da granja do período neolítico ou do Bronze inicial.


Na documentação de Caaveiro no século XII, aparece então Casale de Oario, que daria o atual Ar, talvez por um genitivo tipo *(casale) oari, *oar, até o atual Ar?

Na freguesia de Abelhã (Frades) o controverso Oar ou o Ar:





Na freguesia de São Martinho de Goente (nas Pontes):


E em Santa Cristina de Montouto (Abegondo):



O caraterístico de estes lugares, o de Santa Cristina de Montouto, São Martinho de Goente, Santo Estevo de Abelhã e o de São Pedro de Vilar, é a sua posição central das casas dentro da grande tapada, localização que é infrequente, o que levaria a pensar que neste tipo de granja seriam cuidados animais já com relativa mansidão.

A controvérsia: Isto aqui apresentado não dita com a antroponímia. Como pode ter sido que quatro lugares, ou alguns mais que serão logo mostrados, com conformação territorial semelhante, tenham sido fundados, possuídos, geridos, por pessoas com um mesmo nome?

No caso da vila nomeada Casale de Oario, uma década depois de ser "dada" a Petrus, volta a ser aforada com o nome de Casale de Onorio:

...Et est ipsa hereditate territorio Prucius, vocitata Casale de Onorio, cognomento Ripa, subtus monte Breamo, iuxta Campo Longo...

O que faz pensar esta duplicidade Oario / Onorio em tão pouco tempo: se teria sido um intento do escrivão de grafar algo para ele desconhecido ou pouco habitual ou pôr um nome próprio o mais próximo ao nome "verdadeiro", também poderia ser um erro de cópia ou da transcrição moderna.
Seja como for, a única fonte onomástica de Oario é este documento de Caaveiro. Não aparecem mais Oários nos documentos medievais. Esta lacuna, a falta de outros Oarios, é tratada de resolver aventurando que Oario é uma gralha por Odoario. Mas se tiver sido Casale de Odoario, como é que vira em Casale de Onorio em dez anos?
Mesmo como Casale de Oario virou em dez anos Casale de Onorio?
Também como explicaria Casale de Onorio o atual Ar? Quando sim Casale de Oario explica o Ar atual?
E outra vez: Como é que todos os Ares galegos repetem a mesma conformação territorial?
Então, atendendo ao acontecido com Presedo:

Santa Maria de Presedo (Abegondo).
Em documento de Sobrado dos Monges do 911 como Presidium
Praesidium, em latim literalmente: "o que preside", com os significados de guarnição militar que serve de guarda, escolta ou comboio (tropa munida acompanhante); ou praesidium dando nome a um lugar ocupado por tropas, um acampamento, uma fortificação, uma trincheira.

O raro da busca da origem etimológica de Presedo é que poucos anos depois de estar em documento como Presidium (911), é também documentado como Preseto (935).
O que levaria a pensar que o nome atual de Presedo seria já, na altura do século X, funcional.
Dado que no imediato 1001 ( sessenta e seis anos depois) já aparece como "Sancta Maria de Presedo".
Isto anterior poderia abrir as hipóteses:
- Que Preseto, com -t-, poder ter sido um intento latinizante da palavra Presedo (já fucional no século X). Ou ser a raiz etimológica certa incompatível com Presidum.
- Que Presidium poderia ter sido um nome arcaico, arcaizante, já nesse momento. Ou também outro primeiro intento de latinização, de um  Presedo original.
Seja como for, ambas as formas Preseto e Presidium são incompatíveis (ou uma ou outra, ou nenhuma):


O que leva a pensar que nos escritos do início medieval teria havido um afã latinizante de formas galaicas plenas.



Vai ir aqui Casal do Eiro (Casaldoeiro na ortografia espanholizada) na freguesia de Santa Maria de Viladavil (Arçua):


Neste caso, como nos anteriores de Ar, o Casal do Eiro está no centro do território, que em parte modificados, perdidos, os seus limites parcialmente no lado sul, o que resta deles dá para perceber a unidade.

Hipótese que conclui: debaixo de esta toponímia: Casal do Eiro, Casale de Oario, e os Ares, estaria a palavra protocéltica *aryos "pessoa que tem propriedades, nobre, não plebeu", um proprietário de uma granja talvez já neolítica, uma uilla galaica, que como unidade territorial chegou até a Idade Média, e pode ser que até os dias de hoje (Goente). 
Assim Casale de o Ario teria gerado Casal do Eiro. E Casale *Arii, genitivo, teria dado Ar.

São José de Ares (no concelho do mesmo nome).



Ares em Santa Maria do Aparral (nas Pontes).



Esta hipótese etimológica de estar o protocéltico *aryo dando base à toponímia, abriria a possibilidade a que alguns Eiros nada tivesem a ver com eira / aira (latim area).
 Eiro em São Tiago de Couxela (Riba d'Eu).






et ideo nos supradictostibi Petruspresbiterfacimus cartulam de nostra villa propria que habemus in territorio Pruciusinter duos fluvios Eume et Doroniasub monte BreamoDamus tibi ipsa villa vocitata Casale de Oarioin villa de Cermucuconcurrenciam Sancti Salvatorisper ubi ea potueritis invenire per suis terminis et locis antiquiscum quantum ad prestitum hominis estintus et forisper ubi eam obtinuerunt antecessores nostridamus eam tibi que habeas nos in mente in tua oratione et pro que assidue et studiose missa et vigilias et vesperas exsolvas pro uno anno ibi in Sancto Matheo super corpus domno Luzioet teneas ipsa villa in tota tua vitaet post obitum tuum caritatem fraternam tibi postulamuset non sit tibi hodie

eiusdem ut habeant et possideant pacifice et quiete imperpetuumEt est ipsa hereditate territorio Pruciusvocitata Casale de Onoriocognomento Ripasubtus monte Breamoiuxta Campo Longomedia de ipsa hereditateintus et forisper ubi eam invenire potueritiscum quantum ad prestitum hominis estsi quis tamenquod fieri non credoaliquis homo ex mea parte vel de alienacontra hoc factum meum infringere temptaveitsit


in lago IX modios seminatura et sua fonte et in agros de nabeba tres pedaços per seus tirmios et in o castro alia terra et in illa senrra d'ecclesia super canaria alio pedaço do adque concedo perpetualiter possidenda quisquam pontificum vel
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Rodríguez Muñiz, Víctor, O mosteiro de Santa Cristina de Ribas de Sil na idade media, Ourense, Grupo Marcelo Macías, D.L. 2011